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Um dia, eu vou.

Domingo, 08.02.09

 

 

Nunca fui entusiasta do Brasil varonil. Aqui, sobre as florestas, praias, clima maravilhoso, solo fértil, etc e tal, sempre pairou a enorme sombra de homens, mulheres e crianças sem direito à vida. Vida, aquela coisa que se imagina traga embutida a dignidade de viver. Brasileiros e brasileiras – homenagem a Sir Ney, novíssimo presidente do Senado - filhos de um país estruturado na escravidão e cevado até nossos dias na discriminação racial, econômica, social, de gênero.
 
Dom Lula delicia-se com o que os brasileiros e brasileiras pensam que ele é: o salvador da pátria.  Tenho certeza que hoje orgulha-se de ter desmentido Patativa do Assaré: a esmola não mata mais de vergonha o cidadão. E de ter traquinado sua enorme popularidade entre extremos: Bolsa Família para a boiada e lucros estratosféricos para os banqueiros. O andar de cima e o porão estão gostosamente satisfeitos. E eu, cá no meio, ainda que usufruindo dos meus privilégios de ter sobrevido ao primeiro ano de vida, de ter estudado até o terceiro grau, de jamais ter estado desempregada, de ter como pagar mensalmente meu aluguel, a comida, a roupa que visto, a INTERNET a que tenho acesso diário, não quero mais compor a boiada nacional.
 
Irmão da Guatemala, da Suazilândia, da República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto, Namíbia, em concentração de renda, para “resolver” filosoficamente a questão, dividimo-nos em miseráveis, muito pobres, quase-pobres, pobres, a classe média (rsrsrs...que esta não quer perder seu lugar), quase-ricos, ricos e muito ricos. Esta é a verdadeira escola de samba da avenida brasileira.  Mas nada disso oculta o que somos: um país onde a passagem de séculos apenas piora a concentração da riqueza pois no século XVIII, 10% mais ricos concentravam 68% e em 2008,  10% detém 73,4%.
 
Um Brasil onde o instituto oficial de pesquisa (IPEA) informa que “... Na contramão do equilíbrio fiscal pretendido por qualquer nação civilizada, no Brasil os pobres chegam a pagar 44,5% a mais de impostos do que os ricos (...) O economista (Márcio Pochmann) sugere que os ricos tenham uma tributação exclusiva, para conter esse regime de desigualdade, por meio de uma reforma tributária que calcule a contribuição de cada brasileiro conforme sua classe social.”
 
Mas, a reforma tributária e a reforma política não são prioridades no país da popularidade e nem o foram quando éramos o arremêdo da Sorbonne. Ao invés disto, o Supremo Tribunal Federal coonesta que esses mesmos ricos serão sempre abençoados pelas letras e alíneas da Justiça e os pobres serão vítimas do seu “rigor”.
 
Ah! não vou embora apenas porque não posso. Ainda. Mas quero ir, já que aqui minha alma vive à deriva da paz. Assim, canto para mim, no Brasil de 2009, a mesma canção de 1973. Sem reparos. Porque o cálice continua tinto de sangue. Não mais das torturas da ditadura, mas do sangue feito em suor pelo trabalho mal remunerado ou pelas mortes prematuras da desnutrição infantil ou da insana violência urbana. Porque continua ser muito difícil acordar calada por ser inútil falar entre surdos. E porque a força bruta da miséria e da ignorância remanescem. Sempre. E, porque acredito que o mundo não é pequeno.
 
 
 
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça.
 
 
 
 
(Cálice – Chico Buarque e Gilberto Gil)

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Adelina Braglia às 10:24

2 comentários

De AWOR a 09.02.2009 às 22:34

Espero que a sensibilidade que a música aflora fale por mim...
O “poder” que fez de Vandré um cantador é o que lhe faz escrever...
http://www.youtube.com/watch?v=uy7kTTZe0m8
IR EMBORA... AINDA???!!! ir sozinha... não!!
http://www.youtube.com/watch?v=uy7kTTZe0m8
Pense nisso!!!
Um grande beijo

De Zenaide a 14.02.2009 às 16:33

Querido Awor,
Bia prefere ir e estar sozinha como tem que ser, conforme-se!!! Sem resposta para você, viu? Mas adorei sua sensibilidade e os vídeos e no meu caso gostaria muito de alguém como você ao meu lado.
beijos

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