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As pessoas amáveis.

Segunda-feira, 11.08.08

 

Algumas pessoas muito amáveis preocupam-se com os animais abandonados. Dizem: “... estes pobres cãezinhos estavam famintos e doentes antes de eu acolhe-los. Muitos de preocupam com crianças de rua, mas quase ninguém se ocupa destes pobres animaizinhos...”
O rosto crispado de dor e as lágrimas rolando cara abaixo, é pano de fundo de tanta emoção. E eu, que gosto de animais, embora prefira gatos, fico a confrontar-me com a minha insensibilidade.
 
As pessoas amáveis costumam discorrer sobre a sua preocupação com a miséria, principalmente com a das crianças esquálidas da África. Comentam, comovidas, como era terrível a imagem daquele negrinho pouco-vivo-quase-morto que apareceu no domingo no Fantástico.
E emendam a este assunto a manifestação de aborrecimento que tiveram na tarde anterior, quando um pivete tentou insistentemente lavar o vidro do seu carro antes do farol abrir.
 
A maioria destas amáveis pessoas também não manifesta atrasadíssimos preconceitos contra os homossexuais. Dizem: “... nada tenho contra os gays Só acho muito estranho quererem adotar filhos. Afinal, a pobre criança vai ter que explicar na escola porque tem dois pais ou duas mães...”
 
Já pensei em dizer-lhes – às pessoas amáveis – que se eletrificassem o vidro do carro, para dar choque nos pivetes inconvenientes quando eles encostassem, sobrar-lhes-ia mais tempo para pensar no negrinho quase-morto-pouco-vivo da África.
 
Já pensei também em dizer que poderiam soltar os cachorrinhos e assim teriam espaços para recolher nos boxes do canil os gays, dando prioridade aos que querem criar constrangimentos a uma criança, adotando-a! Afinal, fica muito evidente o constrangimento das crianças terem que explicar-se na escola - que antes nunca puderam freqüentar - que negócio é esse de dois-pais, duas-mães!  
 
Quem sabe também face à insensibilidade que já demonstrei no segundo parágrafo, poderia sugerir-lhes – às pessoas amáveis – que ao invés de recolher os gays aos boxes do canil, ali pusessem suas excelentíssimas mães.
 
Mas, não se assustem. Jamais o farei. Afinal, são pessoas amáveis. E muito sensíveis. E poderiam compreender-me mal.
 

 

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Adelina Braglia às 14:34


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