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Saravá, Brasil.

Quarta-feira, 14.11.12

 

Vivemos tempos de guerrilhas  e batalhas. Umas a bala e nas trincheiras - palavra tão antiga quando a morte é rápida e virtual! - outras no dedilhar de teclados assinando petições ou declarando nossas convicções. Esforço-me por me adaptar ao meu tempo, algumas vezes com exito e noutras com uma enorme nostalgia.

 

Sou de um tempo onde ladroagem era  bater carteira de desavisados e não o usufruto do dinheiro público. Não que não houvesse  - Adhemar de Barros que o diga! - mas a agressividade e o cinismo não eram tão prosaicos!  Mendigo não era palavra feia e referia-se ao “conhecido e estimado pedinte”, que almoçava na porta de casa, dia sim, outro também. E a nova classe média era aquela que, apesar da baixa renda, buscava  a ascenção social pela luta pelos direitos.

 

Meu tempo era o do carro-biblioteca do SESI, que  trazia a cada quinze dias o mundo novo dos livros na esquina de casa. O carteiro era mais aguardado do que o resultado das loterias. Os cachorros corriam enlouquecidos atrás do caminhão do lixo e todas as quartas-feiras o cheiro de peixe da feira semanal invadia nossa rua, antes do carro da prefeitura passar, lavando o asfalto e as calçadas.

 

E daí? Daí, quase nada.

 

Talvez por isso não nego esmolas nas ruas e as poucas vezes em que vou ao Ver-o-Peso, sinto uma enorme saudade das ruas da Vila Madalena.

 

Talvez por isso, ainda que cultive uma apaixonada relação com a Internet, pela velocidade com que nos informa e torna acessível algum conhecimento,  cada vez que tenho um livro nas mãos é como se pegasse uma pedra preciosa, e das letras fluísse uma sabedoria enorme! Tá, não me venham dizer que idiotas também publicam livros, pois basta não lê-los!

 

Talvez por isso também minha tristeza imensa quando leio o  cotidiano nas páginas policiais dos jornais,  onde os netos e bisnetos dos mendigos cordiais das minhas ruas de infância são mortos e esquartejados  na impiedosa demonstração dos resultados da reprodução e do agravamento da desigualdade e da pobreza. E quando vejo que criminosamente se mata todos os dias a alma dos jovens, que saem das escolas sem jamais terem pego nas mãos um livro, salvo aqueles que ensinam que  há nobreza nas fotos dos homens de gravata e torpeza nos que trazem enxadas nas mãos.

 

Saravá, Brasil!

 

 

 

 

 

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Salif e Cesaria

Quinta-feira, 08.11.12

 

 

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Adelina Braglia às 20:06

Pra aliviar o post anterior. De leve....

Quarta-feira, 07.11.12

 

 

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Adelina Braglia às 20:24

Passando a limpo.

Quarta-feira, 07.11.12

Limpando o micro encontrei uns textos perdidos numa caixa "Perdidos" (original, não?). Aí vai o primeiro:

 

 

 

Canto meus bordões como se fossem sérios e rio sem graça das mesmas perguntas, enquanto o sol do Equador queima peles e tempo.

 

Não tenho tempo  e sempre que o quero, o perco.

 

Um diagrama simples me emaranha todos os dias.

 

Enquanto  Nana Caymmi canta a caixa de chicletes, eu lembro das caixinhas Adams, as amarelas, tão graciosas quando se é criança.

 

Digo coisas que queria ter dito e penso outras que detesto haver pensado.

 

Um bolero, de repente, se sobressai sobre a incrível canção de ontem e eu vejo o céu nublado, torcendo pela chuva que não cai.

 

E volto a pensar meus dogmas de juventude e sinto então uma saudade enorme do que fui e do que deixei de ser.

 

(Bordões, agosto, 2005)

 

 

 

A música coloquei hoje..rsrs...

 

 

 

 

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Adelina Braglia às 19:04

Portugal, nosso irmãozinho.

Domingo, 04.11.12

 

Carta à Alemanha

 

Senhora Merkel, Chanceler da Alemanha

Venho pedir-lhe, por ocasião da visita que em breve nos fará, para levar consigo na partida uma breve mensagem aos seus concidadãos. Eis o que gostava que lhes transmitisse:

 

• Sabemos que na década passada os vossos governos vos disseram que tinham de abrir mão de parte dos salários para preservar o futuro do vosso Estado Social. Disseram-vos, e vocês acreditaram, que se prescindissem de uma pequena parte do rendimento presente vos tornaríeis “mais competitivos” e que, dessa forma, o vosso país poderia obter uma poupança capaz de sustentar as vossas pensões e os direitos sociais dos vossos filhos no futuro.

 

• Sabemos que a década passada não foi fácil para vós e que o vosso país se tornou desde então menos bonito e mais desigual. Sabemos também que o objetivo pretendido foi conseguido. Que a Alemanha se tornou «mais competitiva», exportou muito, importou menos e mais barato, conseguiu grandes excedentes da balança de pagamentos e acumulou poupança nos vossos bancos.

 

• Nós sabemos, mas vocês talvez não saibam, porque isso não vos é dito pelos vossos dirigentes, que esse dinheiro acumulado nos vossos bancos, foi por eles aplicado, à falta de melhor alternativa, em empréstimos a baixo juro aos bancos do sul da Europa, entre os quais os bancos portugueses, e por eles emprestado de novo com muita publicidade e matreirice a famílias do sul cujos salários também não cresciam por aí além, mas que desejavam ter casa, carro e um modo de vida parecido com o vosso.

 

• As nossas economias sujeitas à concorrência criada pela globalização que tanto convinha às vossas empresas exportadoras cresciam pouco. Mas o crédito que os vossos bancos nos ofereciam, por intermédio dos nossos, lá ia permitindo que as nossas famílias tivessem acesso a bens de consumo, muitos deles com origem nas vossas empresas exportadoras. Durante algum tempo este estado de coisas parecia ser bom para todos.

 

• Quando em 2008 todas as bolhas começaram a estoirar, os vossos bancos descobriram que não podiam continuar a arriscar tanto e cortaram o crédito aos bancos do sul e mesmo aos Estados. Se a União Europeia não tivesse decidido que nenhum banco podia abrir falência, responsabilizando os Estados pelas dívidas bancárias, teríamos assistido a uma razia quer dos bancos endividados, quer dos bancos credores. Mas a UE decidiu que os governos iam «resgatar» os bancos e que depois ela própria, com o BCE e o FMI, «resgatariam» os Estados. Foi desta forma que os vossos bancos, que haviam emprestado a juros baixos para lá de todos os critérios de prudência, se salvaram eles próprios da falência. Foi assim que eles conseguiram continuar a cobrar os juros dos empréstimos e a obter a sua amortização. Doutra forma, teriam falido. Talvez vocês não saibam, mas os empréstimos concedidos à Grécia, à Irlanda e a Portugal são na realidade uma dívida imposta aos povos destes países para «resgatar» os vossos bancos.

 

• Talvez vocês não saibam também que até agora, os vossos Estados, todos vós como contribuintes, não gastaram um euro que fosse nos «resgates» à Grécia, à Irlanda e Portugal. Até agora o vosso governo concedeu garantias a um fundo europeu que emite dívida a taxas quase nulas para emprestar a 3% ou 4% aos países «resgatados».

 

•Talvez vocês não saibam que em breve este estado de coisas se pode vir a alterar. A austeridade imposta em troca de empréstimos está a arrasar os países «resgatados». Em breve, estes países, chegarão ao ponto em que terão de suspender o serviço da dívida. Nessa hora, haverá perdas, perdas pesadas para todos, contribuintes alemães incluídos.

 

• Talvez vocês não saibam, mas no final, todo o esforço que haveis feito na década passada para tornar a Alemanha «competitiva» e excedentária se pode esfumar num ápice. Afinal os vossos excedentes, são os nossos défices, os créditos dos vossos bancos são as nossas dívidas. Os vossos dirigentes deviam saber que uma economia é um sistema e que a economia do euro não é exceção. Quando as partes procuram obter vantagens à custa umas das outras, o resultado para o conjunto e cada uma delas não pode deixar de ser desastroso.

 

• Talvez vocês não saibam, mas os vossos dirigentes andam a enganar-vos há muito tempo.

Perdoe-me senhora Merkel se entre uma e outra palavra deixei transparecer amargura em excesso. É que não sou capaz de o esconder: o espetáculo de uns povos contra outros é para mim insuportável, sobretudo quando afinal todos eles se debatem com um problema que é comum – o da finança que governa com governos ao serviço de 1% da população, como o seu e o nosso. À memória ocorrem-me tragédias passadas que deviam ser impensáveis. Concordará comigo pelo menos num ponto: é preciso evitar esses inomináveis regressos ao passado.

 

José Maria Castro Caldas

 

(Capturado do Blog Samartaime, aí ao lado)

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Adelina Braglia às 22:08

Não são anos, são décadas.

Sábado, 03.11.12

O tempo marcado em décadas, se peso tem, tem também a qualidade de permitir “olhar” a passagem do tempo com mais generosidade. Comigo e com a humanidade!

 

A primeira vez que me dei conta disto foi quando completei 50 anos. Talvez a emblemática quantia de anos - meio século! - tenha chamado minha atenção mais do que as outras dezenas que já havia percorrido. A partir daí, passado o susto da porção de século, a próxima década foi tranquila. E o tempo passou a ter outro peso, dando a tranquilidade de olhar fatos e coisas com mais calma. Talvez por isto fico curiosa com as matérias sobre os 70 anos de Milton Nascimento ou os de Clara Nunes, se viva estivesse, o centenário do nascimento de Nelson Rodrigues, o centenário da imigração japonesa, e por aí vamos.

 

Nestas comemorações recentes de décadas disto e daquilo, a que mais me divertiu foi o cinquentenário dos Rolling Stones. Na foto mais divulgada, as aparências destacadas: o histriônico Mick Jagger, o transgressor Keith Richards, o contido Charlie Watts e o enigmático Ronnie Wood. Assim eles ficaram na minha memória, ainda que os soubesse personagens de si. Da mesma maneira me vejo como personagem de mim.

 

Criamos modelos de filha, irmã, mãe, amiga, amante, profissionais. Modelos de força ou fragilidade, dependendo do contexto ou da circunstancia. Às vezes uma das interpretações é tão forte que nos cola na pele e passamos anos - décadas? - sem nos livrarmos dela.

 

O que é tudo isso? É só rock and roll. Simples assim. Um amanhecer de sábado, depois de um bom café e o desejo de escrever.

 

 

Tenham um ótimo dia.

 

 

 

 

 

 

 

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Adelina Braglia às 06:51


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