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2011.

Terça-feira, 28.12.10

 

 

Para todos nós, um chapéu de penas, emprestado da Dona Antônia, Maruja de Quatipuru, pra que tenhamos pensamentos leves.

 

Abração.

 

 

 

 

 

 

Atualizado hoje, 02/01/2011, com o primeiro poético resultado de pensamentos leves;

 

 

 

Veja que linda
a pena do meu chapéu,
Maria Orminda.
Com ela que vou pro céu.
Veja a pena, veja a crina
do cavalo passador
com fogo pela narina
voando a asa de flor
no rumo da peregrina,
palavra do encantador,
que espera no céu, Orminda,
a pena do meu chapéu.

*****
Bem, eu tive um pensamento leve.
Esse aí de cima.
Abraço, Ana Diniz
 
 
Um beijão, Ana Diniz!

 

 

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Quintino Lira, o nosso Lampião e a guerra da CIDAPAR.

Domingo, 19.12.10

 

 

 

 

 

 

Guerra do Gatilheiro Quintino

Domingo, 19 de Dezembro de 2010, 00h00(www.estadao.com.br)
O gatilheiro Quintino foi o homem mais idolatrado da história recente do Guamá, território encravado no nordeste paraense de 28 mil quilômetros quadrados, do tamanho de Alagoas, que apresenta os piores índices de desenvolvimento humano da Amazônia. O fuso histórico aqui é o mesmo da época do gatilheiro. E o tempo de Quintino, que também se apresentava como Armando Oliveira da Silva, está próximo do período de barbárie da repressão aos cabanos, entre 1835 e 1840.

A morte do gatilheiro produziu imagens de realismo mágico. Ao final dos combates, em vez de comemorar a vitória e a expulsão da Cidapar - a empresa de mineração que queria desalojar os agricultores que ali viviam -, uma multidão de posseiros foi para o cemitério de Capanema, a 147 quilômetros de Belém, para retirar e dar uma nova sepultura ao corpo de Quintino, enterrado às pressas pela polícia três dias antes. O caixão comprado pela polícia foi trocado por um modelo até mais simples e o cadáver, levado nos braços para ser festejado nos povoados da mata. As cenas ocorreram há apenas 25 anos. No Guamá, ainda hoje, o tempo é da luz de vela e da lei do mais forte.

Pelas suas estradas de terra, tomadas agora por caminhões carregados de madeira ilegal, o cortejo de carros pequenos, ônibus e carroças passou por Santa Luzia, Japim e finalmente Viseu. Em cada ponto onde houvesse gente, o cortejo parava e os homens adentravam com o caixão trilhas e varadouros para que nenhum sitiante deixasse de fazer sua homenagem ao comandante. Em Viseu, onde Quintino havia desafiado uma juíza, a multidão desfilou com o caixão do fórum até o porto.

O ataúde foi colocado num barco e levado a São José do Piriá. Lá, dois dias e 180 quilômetros depois, o rei do cangaço do Guamá, como Quintino também se intitulava, foi sepultado à noite, dessa vez ao lado do pai, o migrante cearense Domingos, que ensinou ao filho a arte do gatilho ainda nos tempos de seca e tiroteio no Vale do Jaguaribe.

"Meu irmão me disse, horas antes de sofrer a emboscada da polícia, que iria deixar a guerra, pois estava cansado do cangaço", relata Raimundo Lira, que liderou a multidão na retirada do corpo de Quintino. "Disse que só tinha perdido companheiros e não ia mais lutar."

Raimundo, 68 anos, vive na Vila do Moça, um grotão sem energia elétrica, ignorado pelo Estado brasileiro como na época de Quintino. Raimundo anda armado, usa bigode e chapéu de feltro preto. É mania dos contemporâneos do líder tentar se parecer com o gatilheiro. "Dei um abraço forte nele. Eu tive o entendimento, pelo meu remorso, que não veria ele nunca mais."

No final dos anos 1970, a Cidapar, apoiada pelo governo estadual, começou a expulsar famílias numa área de 380 mil hectares. Viviam ali cerca de 10 mil pessoas. O capitão James Vita Lopes comandava a "guarda de segurança", uma milícia de 102 pistoleiros. Quando a milícia executou o agricultor Sebastião Mearim, no Alegre, os homens do povoado se reuniram para discutir a defesa. Não tinham experiência em combater inimigo tão forte, que tinha apoio político.

Um dia apareceu na casa do posseiro Benedito Tavares, o Bené Duzentos, no Igarapé do Pau, um homem em fuga, que havia matado o fazendeiro Cláudio Paraná, no Broca, município de Ourém. Era Quintino, que tinha sido expulso de uma terra por ordem da Justiça. Paraná havia expulsado ainda outros 32 posseiros da fazenda Cambará. Quintino matou os pistoleiros Luizão e Changatô, contratados pela viúva de Paraná para vingar a morte do marido. Quintino poupou a viúva e deu início à construção do mito de justiceiro.

"Um dia apareceu o Quintino. Ele me perguntou: "Você está desconfiado de mim?" Eu respondi que não. "Eu sou Quintino, matei um cara que tomou minha terra. Este revólver era dele, este chapéu era dele. Mas defunto não adianta ficar com essas coisas"", relembra Bené. Ele estava diante do homem que o Alegre precisava como chefe militar. "Eu nunca tive coragem", diz Bené. "Ninguém tinha disposição de morrer pelo povo", relata. "Com a chegada do Quintino, fomos para a guerra."

Comida e munições. Quintino, que deixou o Ceará com a família na seca de 1958, tinha um modelo a seguir. Era Lampião, personagem das narrativas dos velhos no Jaguaribe. "Quintino dizia para a gente que era melhor que Lampião", lembra o primo Raimundo Batista.

Na função de comandante dos posseiros, Quintino montou seu estado-maior: Bodão, Zé Mixaria, Corujinha, Manoel Cego, Mundiquinho, Matias, Vicente Bate Pé, Vicente Sola, Cearensezinho, Sodré, Pedro Elias e Abel - este último montou grupo independente. Nessa época, Quintino se separara da mulher, Helena de Aviz, e estava em companhia de Antônia, moça loira que ninguém sabe ao certo de qual família era. "Antônia era cearense também, parecia uma boneca, de tão bonita", diz Raimundo, irmão de Quintino.

Os líderes políticos dos posseiros faziam a logística, garantindo o esconderijo, a comida e as munições. Forneciam até 200 homens para servir de soldados. Nas cidades, o grupo passou a ser conhecido como o "pessoal da mata". Em Faveiro, um dos redutos rebelados, Quintino montou seu quartel-general, uma casa com três grandes cômodos, paredes de taipa - de barro, mas com estrutura de madeira - e coberta com tabuinhas de ipê. Tinha apoios em Timbozal, Cristal, Vila do Baixinho e nos garimpos de Enche Concha, Tatu, Jiboia, Alegre e Fogão.

"Ele só gostava de andar bonito, igual a Lampião", lembra João Justino de Oliveira, 47 anos, um dos adolescentes que acompanhavam Quintino quando o comandante entrava em Santa Luzia jogando balas para as crianças. Andar bonito nos povoados à beira da rodovia PA-MA, a BR-316, era andar armado até os dentes. O jogo no Guamá estava equilibrado.

A guerra começara. O posseiro Raimundo Roxo, da Vila do Baixinho, um dos líderes civis da revolta, foi torturado pelos capangas da Cidapar. "Quintino não guerreava sem avisar", diz Raimundo Batista, primo do gatilheiro. "Ele mandava bilhete para o cabra sair da área", completa. "Foi um herói que não teve paciência para esperar a Justiça."

Começara também a guerra de versões. Quintino foi acusado de mandar bilhetes, hábito comum no Cangaço nordestino, para pedir propinas a fazendeiros. Aliados dele dizem que chefes de grupo assinavam esses bilhetes sem seu consentimento.

O gatilheiro comandou ações que mataram dois gerentes da empresa. A morte de Japonês, o segundo a morrer, marcou o epílogo da guerra de três anos. A "guarda de segurança" da Cidapar estava arrasada. Do lado dos rebeldes, estavam mortos Manoel Cego, Mixaria, Cearensezinho e Bodão. Abel desapareceu.

Era o fim da aventura violenta da Cidapar, montada para produzir borracha, explorar madeira, criar bois e extrair ouro. As instalações viraram esqueletos numa área devastada. Os posseiros permaneceram na terra. "Se eu tivesse paciência para contar, a história do Quintino daria um romance", diz o ex-posseiro Bertolino Oliveira. Ele diz ter testemunhado, em Viseu, o discurso de Quintino contra a Justiça. Bertolino foi localizado a partir do cadastro de fregueses de um comerciante da cidade.

Fuga na mata. Para o governo Jader Barbalho, era questão de honra acabar com Quintino. A Polícia Militar armou uma operação de guerra. Em Guajará, os agentes trocaram tiros com o gatilheiro, que escapou na mata. Antônia, a Maria Feinha - uma alusão invertida à Maria Bonita de Lampião -, foi morta e jogada na mata. "Antônia estava grávida", relata Maria Oliveira Campos, mulher de Bené Duzentos. "Ela estava deitada numa rede quando a polícia chegou atirando."

Fazendeiros de cidades próximas, como Manoel Coutinho, de Capitão Poço, se empenharam na captura de Quintino. Coutinho chegou a criar uma milícia própria para dar apoio à polícia ou tentar caçar sozinho o gatilheiro. Era uma repetição dos nazarenos, grupos armados de famílias que perseguiam Lampião. "Os fazendeiros saíam em caminhonetes cheias de gente armada", lembra Bertolino.

A repressão chegou ao Japim e ao Igarapé do Pau. Bené foi preso. Antes, ele chegou a dar guarita para Quintino. "Eu disse: "Olha, rapaz, o batalhão está no 28 (quilômetro 28 da BR-316), tem muita polícia atrás de você". Ele não me ouviu." Mesmo com a área tomada, o gatilheiro aceitou um convite para uma festa em uma casa de Vila Nova. A tropa comandada pelo capitão Cordovil cercou o local. Quintino tentou escapar pelos fundos, mas foi atingido por um policial. "É o Quintino que vocês buscavam? Ele está aí, morto", teria dito, resignado, o dono da festa, Raimundo Dentista, que arrancava dentes em Japim e ganhou fama de ter sido o delator.

Bené mostra o título de terra dado pelo Incra. Pelos mapas dos terrenos, o agricultor dá as indicações dos locais onde ocorreram os combates. Ele reclama que as três glebas desapropriadas pelo governo paraense foram batizadas de Cidapar. "Por que Cidapar, se nós ganhamos a guerra?"

Herói vira tronco. O cortejo com o cadáver do gatilheiro não evitou que moradores da mata passassem a duvidar da morte dele. Era forte a crença de que ele virara tronco de maçaranduba e cobra em momentos de perigo. Raimundo Lira, irmão de Quintino, diz acreditar que o gatilheiro morreu porque perdera os papéis de orações e santos no ataque no Guajará, dias antes de ser emboscado em Vila Nova. "Quando começou a guerra, meu irmão foi até uma preta no Codó fazer um "trabalho". Ela mandou Quintino ficar sozinho no mato, dentro de um toco, durante nove dias. No décimo dia, um bicho apareceu à meia-noite. Daí em diante ele se transformava em veado ou cachorro, ninguém pegava."

A vida continuou dura nas vilas rebeldes. Depois de visitar a região na companhia da morte, o Estado brasileiro não voltou ao Guamá para oferecer boas condições de vida aos que resistiram. Ainda hoje, faltam energia elétrica, postos de saúde e escolas. Na Vila do Moça, onde Raimundo mora com a mulher Zilda e nove filhos, a mesa de sinuca no bar e as celebrações na pequena igreja evangélica que funciona num barraco de madeira são as atrações para quem quer sair de casa. Outra opção é recepcionar, no centro do povoado, à noite, os moradores que chegam no velho ônibus que vem de Castanhal.

No Faveiro, onde Quintino morou, crianças se acotovelam na sala de uma casa improvisada como escola. À época de Quintino, o lugar tinha dez famílias - hoje são 300. Vive aqui o agricultor Paulo Campos de Oliveira, o Paulão, 55 anos, um dos últimos integrantes do grupo do gatilheiro. Paulão planta malva, banana, feijão, arroz, milho e mandioca e cria galinhas. Diabético, enfrenta 40 quilômetros numa moto para se consultar no Japim.

Mesmo com família numerosa - vive com a mulher e dez filhos -, Paulão demonstra ser um homem que vive na solidão. É da guerra que diz sentir mais saudade. Usa bigode no estilo Quintino. "Foi um companheiro que deixou o nome na história", diz, emocionado. "Não foi só o Quintino quem lutou. Foi todo mundo. Essa briga foi tipo uma guerra, cada um querendo defender sua pátria. Graças a Deus estamos de parabéns, vencemos a guerra."

Paulão lembra que Quintino passava alguns dias no Faveiro e depois se enfiava na mata. "Ele saía pelo mato e não dava endereço", conta. O amigo lamenta que Quintino não tenha ouvido os conselhos de Bené após o combate do Guajará.

"O Bené Duzentos fez um plano para ele não morrer", diz Paulão. "Ele deveria pegar uma canoa e descer à noite o Rio Piriá até a terra do pai. Durante o dia, deveria se esconder no mato. Chegando lá, era para raspar o bigode e tirar o chapéu."

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Tempos modernos.

Terça-feira, 14.12.10

 

Para viver este tempo, é preciso compaixão moderada. Emoldurá-la como valor, mas dosar a prática. Tipo “compaixão por mérito”.

 

À porta, não atenda ninguém. Nem mesmo aquela velha esquálida que estende a mão balbuciando por comida. Sabe-se lá se ela não é uma quadrilheira, dessas que vem na frente para abrir espaço de assalto para a quadrilha?

 

É preciso também ser econômico. Abrace cada vez menos. Abraços não têm mais  significado por si. Podem embutir interesses espúrios, financeiros ou emocionais. Ou, sexuais, se você prefere ser mais direto.

 

Ah! Conversas de pé-de-ouvido, essas são temerárias:  jamais poderão ser segredos ingênuos de família ou de amizades. Certamente serão tramas sórdidas ou senhas para a maldade em marcha. Desconfie de todos os cochichos.

 

Um telefone que toca e você atende e ninguém responde, jamais será de alguém que, inibido, não reconheceu a voz que esperava e desligou por presumir ter ligado errado. Pode ser uma tentativa de seqüestro ou de assalto, para saber se há alguém em casa. Na dúvida, se não tiver marcador de chamadas,  não atenda.

 

Não visite seus amigos, mesmo quando tem saudades deles. Sabe-se lá se, no caminho, um seqüestro relâmpago não aguarda você?

 

Enquanto isso se exponha no MSN, no Orkut, no Twitter, no Facebook. Diga tudo o que pensa, seja sempre jocoso, bem humorado. Demonstre sua inteligência, solidariedade e esteja sempre up-to-date!  

 

Economize-se na vida, para gastar-se na rede social.

 

 

 

Atualizado hoje, 17/12, com o "comentário" do Poeta:

 

 

 

Sobre girassóis de espuma

Ademir Braz

As máquinas pararam.
A que impulsiona a lancha
e aquela caixa mágica que sonda
a profundeza das águas.
Há horas vagamos assim: leva-nos
a correnteza entre pedrais e ilhas
sob o cardume de estrelas no céu escuro.
Nadamos no breu. Reféns,
rolamos o penhasco da noite
sobre girassóis de espuma.

Inda há pouco sondamos inquietos
as margens invisíveis, a massa disforme
das ilhas cravadas no rebojo.
Se morrêssemos aqui, não nos achariam
entre pedras do sono e pirilampos.

(Não me incomodaria, decerto,
morrer nesta bela noite entre saranzais...
Depois, quem choraria a morte do poeta?
Desgosta somente pensar o destino
dos meus gatos miúdos, dos netos
Kotôko, o pinscher, e Luna, a vira-lata,
que os filhos dizem filhos seus.
Quem levaria Canção Pequena, o curió
arisco e canoro senhor das claras manhãs?
E o que resta de minhas orquídeas
e dos versos inconclusos, desalinhados,
e das noites de insônia e morna solidão
na casa arruinada que me acolhe?
Quem ficaria com os poucos amigos?
E com Arnaldo Jabor-ty, rei do quintal?
E minha amada, a quem amaria,
de novo enlevada com seus olhos de chá?
Os livros, eu sei: nesta terra agreste
aguarda-os, na esquina, o lixão da rua.)

Ponho-me a rir do pensamento mórbido
e espio os parceiros de infortúnio:
sinto suas caras cinzentas no escuro.
Em que pensarão? Olho as estrelas: lindas!
Se eu tivesse ao menos um disco-voador...

Por fim, aquietamo-nos: lá embaixo
– tão longe! – uma ponte cruza o rio
iluminada como um colar de diamantes.

 

 

 

 

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Saudade mansa.

Sexta-feira, 10.12.10

 

Hoje a madrinha faria 100 anos! Deixou-nos antes disto, mas o principal ficou conosco: os exemplos de generosidade atávica, de amor à família, de compreensão das fragilidades, da necessidade de elogiar.

 

Nela, a fraternidade não era lema de bandeira: abria o portão e ofertava a comida. Para o “Peixe”, para a “Bonitinha”. Como se fosse isso  natural como o nascer dos dias.

 

Na escadinha  da cozinha,  eu via o bife ser dividido entre todos e, milagrosamente, eles se multiplicarem na chegada de mais alguém.

 

Oferecia o colo e a repreensão com a naturalidade de quem ama. E ensinava que a vaidade era virtude e não pecado. A tintura nos cabelos era religiosa! E cantava, me ensinando que a música é companheira. E passeava pela casa sua majestosa aura, comprimida em metro e meio de mãe.

 

Saudades de você. Uma saudade doce, mansa, emocionada e feliz, de quem teve o privilégio de poder ser também sua filha.

 

Um beijo, Mamada. E uma canção pra você ouvir, onde estiver.

 

 

 

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Agradecendo.

Quinta-feira, 02.12.10

 

 

De Anna  Akhmátova,

 

transcrito para  Ana Cleide,

 

como agradecimento.

 

Pelas suas mãos e pela poesia compreendo o que é ser  “realizada”.

 

Obrigada, Ana.

 

 

 

Eu, como um rio,

fui desviada por estes duros tempos.

Deram-me uma vida interina. E ela pôs-se a fluir

num curso diferente, passando pela minha outra vida,

e  eu já não reconhecia mais minhas próprias margens.

Oh, quantos espetáculos perdi,

quantas vezes o pano ergueu-se

e caiu sem mim. Quantos dos meus amigos

nunca encontrei uma só vez em toda a minha vida,

e quantas paisagens de cidades

poderiam ter-me arrancado lágrimas dos olhos;

mas só conheço uma cidade neste mundo

embora nela fosse capaz de achar meu caminho até dormindo;

e quantos poemas nunca cheguei a escrever,

e seus refrões misteriosos pairam à minha volta

e, talvez, de algum jeito, acabem por

me estrangular...

Estão claros, para mim, o começo e o fim,

e a vida depois do fim, e mais algumas coisas

de que não tenho de me lembrar por enquanto.

Uma outra mulher ocupou

o lugar especialmente reservado para mim

e usa meu nome,

deixando para mim só o apelido, com o qual

fiz,  provavelmente, tudo o que havia para ser feito.

 

Não me deitarei, ai de mim,  em meu próprio túmulo.

Mas, às vezes,  o vento brincalhão da primavera,

ou certas combinações  de palavras em um livro,

ou o sorriso de alguém suscita em mim,

de repente, essa vida que nunca aconteceu.

Neste ano, houve tais e tais coisas,

naquele ano, aquelas outras: viajar, ver, pensar

e lembrar, e entrar em um novo amor

como dentro de um espelho, com a leve consciência

da traição e de que, ontem, ainda não estava ali

aquela ruga.

..............

 

Mas se eu pudesse observar de fora

a pessoa que hoje sou,

aí sim, aprenderia finalmente o que é a inveja.

 

(Leningrado, 2/9/1945)

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Adelina Braglia às 11:35

Hai Kai: da série cínicos.

Quinta-feira, 02.12.10

 

 

I

Menos circo.

Mais feijão.

E menos bromato no pão.

 

 

II

Num governo se compondo

vê-se debaixo dos panos

que o mundo não é redondo.

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Adelina Braglia às 08:38

Rio, 2010.

Quarta-feira, 01.12.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Adelina Braglia às 01:52


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