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Queluz, Bahia, Amazônia.

Domingo, 20.09.09

 

 

 

 

 

Achei esse vídeo de Noel e grupo Tangará. “Vamos voltar pro norte”, é a canção.

 

Lembrei que para paulistas e cariocas, há trinta anos, quando se ultrapassava Queluz, tudo era Bahia e esse tudo, era o 'norte'. Pejorativamente, chamava-se todo  migrante de nortista ou baiano, fosse ele de Pernambuco, Sergipe ou Rio Grande do Norte. O " nordestinos", como generalização, veio depois.

 

Hoje não é mais assim. Afinal, já dispomos de informações que permitem aos sulistas uma visão mais acurada sobre a divisão entre “norte” e “Amazônia”, essa híbrida e cobiçada floresta!

 

Um dos problemas, porém, é que sob a griffe Amazônia, tão festejada pelos brasileiros do centro-sul, estamos nós, afogados na névoa densa e verde. Diferenças sócio-econômicas-culturais como as que existem entre Acre e Amazonas, Amapá e Pará, são para eles irrelevantes. Afinal, ainda que a geografia seja muito favorecida pelo Google Earth, filosoficamente ainda depois de Queluz é Bahia e da Bahia pro lado, é mato.

 

Talvez por isto eu tenha uma irritação enorme quando se fala em Amazônia, reforçando a imagem pasteurizada de coisa homogênea. E por Ito também não tenho a menor simpatia ou comoção pela expressão “povos da floresta”. Povos da floresta, para mim, são os sacis, os matinta-perêras.

 

Nós, os que vivem na Amazônia, somos castanheiros, seringueiros, cientistas,  lavradores, engenheiros, pescadores, médicos, artistas, filósofos, garçons  e todos esses bichos que também vivem por lá, onde insistem em defender-nos de nós mesmos. Assim como lá também estão os caiçaras - nossos ribeirinhos - povos indígenas e comunidades quilombolas. Que, como aqui, não se diferenciam pela geografia. Nos diferenciamos por  outros motivos, que a densa e verde névoa não poderá jamais disfarçar. Ou esconder.

 

Quem sabe essa não é uma intrigante história da carochinha da tragédia nacional.

 

 

 


Fui.

 

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Adelina Braglia às 19:54

Paulinho.

Domingo, 20.09.09

 Sou fã incondicional do Chico Buarque.  Até aí, morreu Neves, como se dizia muito antigamente. 

  

 Mas, se uma desgraça, um castigo e uma sina só me permitissem ouvir um único compositor para o resto da vida, esse seria Paulinho da Viola.

 

 

 

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Adelina Braglia às 19:17

O diabo pode precisar!

Sexta-feira, 18.09.09

 

Das viagens que não farei, não sentirei saudades sempre. Nem do Caminho de São Tiago que não vou percorrer, nem da Barcelona que não conhecerei.
 
Já não é mais uma questão de faltar ou sobrar dinheiro. É uma questão de tempo ou de disponibilidades internas, que já não existem mais.
 
Lembro da Vera dizendo que deveríamos fazer algumas coisas antes que fossemos fazer encontros de amigos secretos no andador ou no balão de oxigênio.
 
A mesma Vera que um dia, numa conversa de adolescentes, já me mostrava que não sei administrar meus sonhos.
 
Conversávamos sobre o que pediríamos para a fada madrinha se ela aparecesse ali na nossa frente. Eu, embatucada entre vários desejos, e ela firme: “Eu peço é a varinha mágica!”. E até hoje eu não sei o que pediria à fada madrinha!
 
Dos amigos que perdi para a vida que se encerrou sem autorização, sinto hoje menos saudades do que daqueles que estão vivos e que eu não encontro. Uns pela distância geográfica, outros pela distância que esse mesmo estranho tempo interno ou falta de disponibilidade dificultam. Os que morreram parecem estar muito próximos na memória dos risos e das conversas. E essas não dão trabalho: é só porta-las com a gente.
 
Acho que os melancólicos têm essa parada que eu tenho às vezes, com ou sem remédios. É como uma pausa, um “break”, para percebermos, ou relembrarmos, que a dor real é a de existir. O resto é resto.
 
Especialmente nestes tempos de canalhas à beça, de medíocres aos montes, de injustiças transformadas em destino, de qualidades contabilizadas na boca do caixa. São restos que devem ficar à margem, pra maré levar.
 
Dos caminhos que não percorrerei, não sentirei saudades.
Dos amigos que perdi, guardo as memórias.
Dos sonhos que não realizei, ficam registros.
Os desejos que jamais trouxe à tona, que se afoguem no Pondera.
É isso.
 
E, enquanto escrevia, lembrei de uma canção magnífica – Devil may care.
 
Sou sobrevivente. Muitos acreditam que o são, mas é mentira.
Mas, eu sou. E, o diabo que use o que precisar...rsrsrs...
 
 
 
No cares for me
I'm happy as I can be
I've learned to love and to live
I'm happy as I can be
Devil may care
No cares and woes
Whatever comes later goes
That's how I'll take and I'll give
Devil may care
 
When the day is through, I suffer no regrets
I know that he who frets, loses the night
For only a fool, thinks he can hold back the dawn
He who is wise never tries to revise what's past and gone
Live love today, let come tomorrow what may
Don't even stop for a sigh, it doesn't help if you cry
That's how I'll live and I'll die
Devil may care
 
When the day is through, I suffer no regrets
I know that he who frets, loses the night
For only a fool, thinks he can hold back the dawn
He who is wise never tries to revise what's past and gone
Live love today, let come tomorrow what may
Don't even stop for a sigh, it doesn't help if you cry
That's how I'll live and I'll die
Devil may care
 
 

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Adelina Braglia às 13:44

Sobre abacaxis e esmolas.

Quinta-feira, 17.09.09

 

Meu pai cortava o abacaxi no sentido do comprimento. Acostumada a ver maravilhosas rodelas de abacaxi na casa dos outros, perguntei a ele porque não o cortava em fatias redondas.
 
Pacientemente, como era do seu feitio, explicou-me que o abacaxi tem uma extremidade doce e a outra azeda. Que ao corta-lo em rodelas, reserva-se as fatias doces para uns e as azedas para outros. Cortando no sentido do comprimento, come-se o doce e o azedo. A explicação me satisfez e nunca mais me incomodou ver abacaxi em rodelas na casa dos outros. Gostava dos pedaços da minha casa, onde o azedo e o doce se misturavam. E, quase sempre, é assim que eu o corto.
 
Lembrei disto hoje pela dificuldade que tive anteontem para explicar-me bem à amiga sobre meu comportamento de dar esmolas, cigarro, lanches, a quem quer que me peça na rua, e às vezes, o último tostão que tenho na carteira.
 
Não consegui explicar-me bem e saí incomodada por não ter resposta que convencesse a mim, não a ela, que não me cobrava nada. E, na minha lentidão,  não me livrara da sensação incômoda até agora. Pensei que não o faço por piedade, sentimento que aprendi a não cultivar e que diferencio da comiseração. E também não acho que eu seja uma pessoa que se sente magnânima ao fazer isso. Não, não me sinto. Na verdade é quase um gesto automático atender quem me atalha.
 
Daí a teoria do abacaxi me socorreu ontem à noite, quando cortava um: a vida dá a algumas pessoas só as fatias azedas, queiram elas ou não, sem critérios de merecimento. Assim como, aleatoriamente, reserva a poucos apenas fatias doces, suculentas. Mas, felizmente, permite que alguns a "devorem" na vertical, entre o amargo e o doce, às vezes agridoce. Talvez por isso eu não questione nunca meu gesto de atender pedidos na rua. Os que me pedem um trocado, um cigarro, mentindo ou não, ficaram com as fatias azedas da vida. Eu, felizarda, sempre comi o pedaço com as duas pontas.
 

E, de repente,  ficou muito simples explicar-me, Ana Diniz... rsrsrs....

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Autopromoção por uma boa causa.

Segunda-feira, 14.09.09

 

 “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” (Caetano Veloso)
 
Adelina Braglia

Imitando o sociólogo Demétrio Magnoli, que sob o título O dom de iludir (sem aspas) usou o samba de Caetano, sei que não vou acompanhar plenamente o raciocínio do que foi o “samba” do seu artigo, publicado em Tendências/Debates (FSP, 9/9/2009), contestando artigo de Boaventura de Sousa Santos na mesma coluna em 26/8. Na verdade, o artigo do professor Magnoli acabou parecendo um comemorativo libelo a favor da exclusão das cotas do Estatuto da Igualdade Racial. Mas, vou tentar.
Fica mais fácil fazê-lo seguindo a estrutura do discurso do sociólogo que sem dados, sem números, sem história, embalado sempre pela sua grossa (o contrário de fina) ironia, busca fragmentar Boaventura de Sousa Santos reduzindo-o a um intelectual da “nova esquerda”. A mim parece que com isto Demétrio Magnoli pretende ser reconhecido como o arauto “nova direita”.

Vamos então ao discurso e à fé do arauto da direita: usando como exemplo o filho do Ministro Joaquim Barbosa como hipotético beneficiário das cotas, o articulista afirma que ele ocuparia, com menos pontos, a vaga de um filho de trabalhadores com renda familiar de três salários mínimos. Neste ponto, é comovente destacar como a noiva direita, quando se trata de implodir a política de cotas, lembra-se sistemática e patrioticamente dos filhos dos trabalhadores.

Supondo que assim fosse, e daí? O filho do Ministro Joaquim Barbosa teria direito a uma vaga pela política de cotas. E estaria na universidade, ainda assim, com direito legal e legítimo de um programa, uma política, diferente dos filhos dos Matarrazzos, dos Gerdaus, dos Diniz que sempre ocuparam e ocupam vagas nas universidades públicas, sem que o Professor Demétrio tremesse nas bases por causa disto. Porque para eles, prevalece o direito divino de serem brancos.

Ressalvo que – para evitar o reducionismo periférico - nada tenho contra os filhos de Matarazzos, Gerdaus e Diniz na universidade pública. Apenas estou aqui dançando o samba como o professor Demétrio entoa e seguindo seu raciocínio: o privilégio da branquitude nasceu conosco, os brancos, e os negrinhos que se coloquem no seu devido lugar. Elogie-se até o professor Magnoli, pois, democraticamente, quando se trata de políticas afirmativas para os negros, ele não perdoa nem os “negrinhos de elite” que, segundo ele, Du Bois justificava com a elite dos talentosos 10% e, pelo visto, com um incrível acerto histórico para o pan-africanismo norte-americano, pois ali está, impávido, Barak Obama.

O Professor Magnoli vai buscar até o Ministro Gilmar Mendes – merecidamente mais nova direita do que ele – e depois de dois parágrafos nada comoventes sobre a revolução Francesa, e a tríade fraternidade-igualdade-liberdade, premia-nos com a seguinte pérola: “A raça é uma fraternidade de sangue: uma irmandade inventada a partir de descendências imaginárias. Dividir o Brasil em raças oficiais, o pressuposto dos sistemas de cotas raciais, equivale a optar por esse tipo de fraternidade, em detrimento da “irmandade dos cidadãos”.

Não nos esqueçamos, no entanto, que o professor Magnoli recomenda que não se justifique as cotas só pelo conceito de fraternidade – mas, reparem que ele já nos permite pensar nisto! – pois a burguesa revolução francesa aliou-o à liberdade e à igualdade dos cidadãos. Aliás, como o Professor estava um pouco confuso quando escreveu seu artigo, usou isto como ironia pelo fato da esquerda usar este discurso burguês. Mas não vou me alongar aqui, pois, recorrendo também a um samba, este de Noel Rosa, aviso: “ ...o maior castigo que eu te dou, é não te bater pois sei que gostas de apanhar...”

Então tá, Professor Magnoli, vamos concordar, pelo menos esta única vez. Gostei da sua explicação. A melhor, talvez, que alguém já produziu para justificar a política de cotas. Mais honesta e brilhante do que a que propor que elas sejam cotas de reparação ou de ação temporal para superar parte do fosso do acesso de negros e brancos ao ensino superior, ou paliativo pra dar um “corte por cima” na excrescência de termos 50% de negros no país e menos de dez por cento das nas universidades, etc. e tal e mais, muito mais poética. E, como diz Paulo César Pinheiro, “O importante é que a nossa emoção sobreviva. E a felicidade amordace essa dor secular...”

Fica estabelecido, ao menos para mim, que as cotas são uma política de fraternidade, com um pequeno adendo: não é fundamentada numa descendência imaginária. É fundamentada numa ascendência real de homens e mulheres privados de todo direito, do mais elementar – a vida – ao mais “sofisticado” - o acesso è educação em todos os níveis. Ascendência gravada literalmente a ferro e a fogo na memória dos negros e na desmemoria de alguns brancos.

Axé, Monsieur Magnoli. Cotas pela fraternidade é meu novo lema.

(Publicado em 13/09/2008 no site Afropress)
 

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Adelina Braglia às 13:59

Que eu cegue, fique surda e cale a boca!

Sábado, 05.09.09

 

Esta semana, as ruas de Belém  viram a revolta dos operários da construção civil. Fúria, mais do que revolta.

  

Fúria que foi combatida com veemência pela polícia e aplaudida pela sociedade, a mesma que consome os apartamentos de 2 milhões, um por andar. A mesma  que faz de conta que não há nada de estranho no "boom" imobiliário, que assola a cidade há quatro ou cinco anos. Sequer suspeita que tanta "produtividade" pode ter estranhas origens!

 

As torres de concreto, exibindo a luxúria que prometem, construídas sobre salários miseráveis e condições de trabalho insanas e ilegais, ficaram intactas.

 

Nossa solidariedade, nossa capacidade de compreender para além da fúria, foram definitivamente danificadas.

 

Repito este post também no Monólogos.

 

 

Quem sabe assim, aplaco minha vergonha.


A letra, para facilitar:



 

Só peço a Deus
que a dor não me seja indiferente
que a seca morte não me encontre
vazia e só sem ter feito o suficiente
 
Só peço a Deus
que a injustiça não me seja indiferente
que não me esbofeteiem a outra face
depois que uma garra me arranhou esta sorte
 

 

Só  peço a Deus

que a guerra não me seja indiferente
é um monstro grande e pisa forte
esmaga toda a inocência da gente
 

 

 

 

(Solo le pido a Diós – León Gieco)

 

 

 

 

 

 

 

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Adelina Braglia às 07:39


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