Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Agosto 2009

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031


Pesquisar

 


Duelo de gigantes!

Segunda-feira, 31.08.09

 

 

São Paulo "vesus" Palmeiras!

 

 

 


Ser palmeirense, o único defeito do meu irmão!

Ser sãopaulina, uma das minhas virtudes!

 

 

 

 

 

(Imagens do Estadão)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adelina Braglia às 06:52

Lembrando de Carolina. Ou apenas um mau sonho.

Domingo, 30.08.09

 A “pacificação” na política brasileira, suas motivações, a propalada “governabilidade” cada vez mais parecem me indicar que somos o mais perfeito exemplo de Eduardo Galeano, quando se refere à América Latina como o continente das veias abertas, sugado e expoliado pelos vampiros. Este é o Brasil, retrato 3 x 4 do que Galeano descreve para o continente. Os vampiros estão a postos e comemorando.

 

Nossa história é feita de disputas internas mesquinhas, cujo único objetivo são a manutenção do poder, ditatorial ou democrático, legitima ou ilegitimamente, mas o poder do andar de cima,  arrancado do povo que continua sambando no porão. A sensação é de que perdemos sempre e que, ainda que esforçadamente eu seja capaz de enxergar os “avanços”, estou desistindo.

 

Nossa derrota como povo serve sempre à vitória de interesses com roupagens diferentes, mas cujo motor é o mesmo: a atávica ganância desta elite sempre muito bem representada nos seus interesses. Representada até quando eu imaginei que, ainda que sem rupturas, a partir do Governo Lula os pilares desta esbórnia poderiam ser vagarosamente fraturados. Durou somente três anos a minha ilusão.

 

Garantir que o sistema bancário esteja mais tranqüilo e superavitário do que esteve nos últimos 20 anos, aprofundar a precarização das relações de trabalho, rebaixar salários para manter empregos (!!!), impedir julgamentos das mais nefastas figuras da rapública, ameaçar adversários, garantir o beneplácito da mídia a peso de ouro (financiamentos, contratos, propagandas institucionais), “compensando”  a pobreza com programas sociais insustentáveis a longo prazo, não empolga.

 

Nossos jovens morrem cada vez mais nas mãos da violência que as estatísticas agregam nas “causas externas”. “Analfabetizados” nas escolas, ali nada aprendem sobre a sua capacidade de refletir, avaliar e transformar. Têm como exemplo um presidente que se vangloria da falta de estudos e considera que errar persistentemente na fala é uma bandeira desfraldada para mostrar que ele chegou lá. Mas chegou lá não por ter ter baixa formação escolar, por ter sido torneiro mecânico ou nordestino migrante de família paupérrima. Lula  chegou à presidência como profissional do seu partido, apoiado e mantido por ele, o que faz a empulhação do “homem do povo” ser  insuportável.

 

Isso lembra de novo Galeano que cita Carolina de Jesus, a negra, a favelada, que atreveu-se a escrever e publicar um livro – Quarto de despejo. Saciada a consciência “esquerdista”, comovidos os “cristãos”, anos depois ela foi encontrada morta, pobre,  como sempre foi, numa manhã de domingo, no meio do lixo. Não era mais necessária à nossa consciência cívica.   

 

Não sei porque escrevo isso agora. Talvez seja apenas fruto de algum mau sonho nesta madrugada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adelina Braglia às 07:11

Lealdade a quem e não a quê.

Quarta-feira, 26.08.09

 

Ser leal é uma virtude. Ser leal aos seus princípios é fundamental. Eu, quando isto não fere a primeira premissa, sou ferozmente leal aos meus amigos. O Presidente Lula opta pela segunda e não sei sequer se preservou realmente um dia, a primeira. Sei que isso explica muito  o que ele chama de  "governabilidade". Governabilidade é a sua manutenção no posto. 

 

Foi assim com Dirceu. É assim com Sarney. E pronto!  

 

Dane-se a República.

 

É tão transparente o nosso Presidente. Nós é que somos muito complicados.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adelina Braglia às 06:47

Poeminha transversal.

Terça-feira, 25.08.09

 

 

Tivesse eu dormido quinze anos

e acordasse sonambulamente

vagando nesta cidade,

neste país,
 
 

cortaria os pulsos.

 

 
 

Como dormi pouco nestes anos

e acompanhei o desfazer dos sonhos,

acordo todas as manhãs

 
 

com os pulsos cicatrizados.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gripe suína: oriente-se.

Domingo, 23.08.09

 Gripe Suína: Verdades e Mentiras

 

1. Resistência ao Tamiflu: VERDADE
Durante uma epidemia a melhor arma para enfrentá-la é a correta informação da população. Jornais brasileiros de grande circulação publicam matéria com chamada do tipo "Saúde Comprará remédio para Gripe Suína Resistente ao Tamiflu, mas não há motivo para pânico.
Oficialmente não temos no Brasil casos confirmados de resistência. A medida do Ministério da Saúde apenas representa zelosa cautela. Segundo a Organização Mundial da Saúde, até hoje, na América Latina foram registrados 4 casos. Todos relacionados com o uso do Tamiflu em subdose. Daí porque é importante restringir o uso do medicamento sem prescrição e supervisão médica.

2. O Ministério da Saúde retirou do mercado o Tamiflu: MENTIRA
A autoridade sanitária nacional jamais ordenou a retirada do Tamiflu do mercado. Estrategicamente, o Laboratório Roche recolheu o medicamento para atender a necessidade do governo brasileiro de enfrentar a atual pandemia de gripe H1N1. Evidente que a medida administrativa do produtor contempla a equidade, porque permite que todos tenham acesso ao medicamento nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), evitando que o poder aquisitivo de poucos restrinja o acesso de muitos.

3. Idosos podem ter proteção relativa contra o vírus: VERDADE
Os idosos constituem grupo de risco para a gripe suína, especialmente devido a concorrência de comorbidades, ou seja, doenças prévias que debilitam o indivíduo. Contudo, pelo fato dessa geração ter entrado em contato antes de 1957 com um grupo de vírus semelhantes ao H1N1, o quadro desenvolvido poderá em tese ser menos grave em 33% dos casos com mais de 60 anos de idade.

4. Pacientes acometidos de H1N1 transmitem por uma semana a doença - VERDADE
Após o início da doença, pessoas infectadas pelo vírus H1N1 transmitirão a doença até 7 dias após o início dos sintomas. Durante esse período devem ser mantidas em isolamento.

5. Retardar o início das aulas é uma boa medida para evitar a doença - MENTIRA
Não existem evidências científicas consistentes que comprovem a efetividade da medida. A rigor durante qualquer epidemia de gripe recomenda-se evitar a presença em locais onde compareçam grande número de pessoas. Devemos considerar, contudo, que ao retardar o início das aulas os estudantes não permanecem em casa e terminam por buscar outros ambientes coletivos, como danceterias, cinemas, shopping centers, expondo-se assim à doença. Em Cingapura, no mês de julho, por exemplo, era expressivo o número de adolescentes que adquiriram a doença em danceterias.

6. Grávidas devem ser afastadas de ambientes insalubres - VERDADE
As estatísticas da epídemia por H1N1 demonstram claramente que gestantes são grupo de risco. Por essa razão é recomendável não expô-las a ambientes onde o vírus tenha maior circulação. Entretanto, não basta afastá-las por um período x ou y de dias, pois se estivermos numa curva ascendente da epidemia, quando retornarem ao ambiente, essas mulheres novamente estarão sob risco de contrair a gripe. Recomenda-se assim afastamento até o parto ou mudança do ambiente de trabalho.

7. Pacientes com SIDA (AIDS) apresentam mais insuficiência respiratória - MENTIRA
Embora ainda não esteja esclarecido por qual razão, é muito raro que pacientes com SIDA (AIDS) desenvolvam o quadro gravíssimo de Síndrome da Angústia Respiratória do Adulto por H1N1. Em termos estatísticos, no Brasil, entre os internados na Terapia Intensiva por essa condição potencialmente letal apenas 1 estava em tratamento para o HIV.

8. Exames negativos afastam a possibilidade de gripe suína - MENTIRA
Os testes apresentam limites técnológicos, especialmente entre aqueles utilizados para diagnósticos rápidos. Além do tempo de evolução da doença, um aspecto importante a considerar é o uso de Tamiflu, por reduzir a carga viral e, por conseguinte, possibilitar resultados negativos de investigação laboratorial. Cabe por fim sublinhar que, na vigência de uma pandemia por H1N1 , um diagnóstico post-mortem onde sejam descritas lesões do tipo citopáticas nos pulmões, fígado e rins é sugestivo de que o desfecho decorreu devido a complicações pelo H1N1, desde que excluídas outras possibilidades infecciosas. Casos de grave insuficiência respiratória podem decorrer de uma excessiva resposta orgânica ao vírus, a ponto de ser necessário o uso de corticóides em altas doses para salvar o paciente. Contudo, não existem estudos estatísticos que definam a acurácia da microscopia eletrônica para identificar o H1N1 em tal situação. Em resumo: frente a uma situação pandêmica, a suspeita de gripe por H1N1 deve ser principalmente fundamentada em informações clínicas e epidemiológicas.
 
 

Itajaí de Albuquerque, no Vôo de Galinha, ali ao lado.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Democracia racial brasileira: um crime perfeito.

Domingo, 23.08.09

 

 

Nosso racismo é um crime perfeito

 Por Camila Souza Ramos e Glauco Faria 

 

  

Fórum - O senhor veio do antigo Zaire que, apesar de ter alguns pontos de contato com a cultura brasileira e a cultura do Congo, é um país bem diferente. O senhor sentiu, quando veio pra cá, a questão racial? Como foi essa mudança para o senhor?


 Kabengele - Essas coisas não são tão abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. Não se depara com o preconceito à primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas vêm pouco a pouco, quando se começa a descobrir que você entra em alguns lugares e percebe que é único, que te olham e já sabem que não é daqui, que não é como “nossos negros”, é diferente. Poderia dizer que esse estranhamento é por ser estrangeiro, mas essa comparação na verdade é feita em relação aos negros da terra, que não entram em alguns lugares ou não entram de cabeça erguida.
 Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.
 A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não. Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia?
 Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão... A geografia do seu corpo não indica isso.
 Então, essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui também vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas. Fui com o tempo respondendo à questão, por meio da vivência, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da população negra, e entendi que a democracia racial é um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul. Porque nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira.
 
 Revista Fórum - Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo...


 Kabengele - Claro, é mais difícil. Porque você não identifica seu opressor. Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.
 
 Revista Fórum - Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial?

 

Kabengele - Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.
 Em comparação com outros países do mundo, o Brasil é um país que tem um índice de mestiçamento muito mais alto. Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendência. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indivíduo se autodeclara afrodescendente. Às vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mestiços, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mestiço, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso são erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, não seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas não é isso que vai impedir uma política pública que possa beneficiar uma grande parte da população brasileira.
 Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.
 O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.
 Fórum - Que é o argumento do Demétrio Magnoli.


 Kabengele - Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, "negro, volta pra senzala". Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.


 Fórum - Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?


 Kabengele – Tenho a impressão que as posições ideológicas não são explícitas, são implícitas. A questão das cotas é uma questão política. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que não há racismo no país. E o argumento desse deputado do DEM é esse, de que não há racismo no Brasil, que a questão é simplesmente socioeconômica. É um ponto de vista refutável, porque nós temos provas de que há racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A ideia de que o Brasil vive muito bem, não há problema com ele, que o problema é só com os pobres, que não podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discriminação contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres também são beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.


 Fórum – Mas isso não é um cinismo de parte desses atores políticos, já que eles são contra o sistema de cotas, mas também são contra o Bolsa-Família ou qualquer tipo de política compensatória no campo socioeconômico?


 Kabengele - É interessante, porque um país que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudança, de transformação da sociedade. Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. "Ah, é só mudar a escola pública." Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica.
 E tem esse argumento legalista, "porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil". Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível. Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.
 Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros. Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi.
 A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.
 
 Fórum - O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito...


 Kabengele - O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la.
 Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o “preconceito de ter preconceito de ter preconceito”. O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.
 Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: "Não vou alugar minha casa para um negro". No Brasil, vai dizer: "Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar". Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.
 Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: "você já discriminou alguém?". A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar... Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: "você que é complexado, o problema está na sua cabeça". Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.
 
 Revista Fórum - O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.


 Kebengele - Faz parte desse imaginário. O que está por trás que está fazendo uma ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade.
 Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. Estão praticando um preconceito que não respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor é algo sem fronteiras, e não teria tantos mestiços nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustração disso, ou é uma provocação ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.
 
 Fórum - É que no caso, o Danilo Gentili ainda justificou sua piada com um argumento muito simplório: "por que eu posso chamar um gordo de baleia e um negro de macaco", como se fosse a mesma coisa.


 Kabengele - É interessante isso, porque tenho a impressão de que é um cara que não conhece a história e o orgulho negro tem uma história. São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de escravidão, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Para poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho negro. E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. Se o humorista conhecesse isso, entenderia a história do orgulho negro. O branco não tem motivo para ter orgulho branco porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá em baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.
 
 Fórum - O senhor tocou no caso do Grafite com o Desábato, e recentemente tivemos, no jogo da Libertadores entre Cruzeiro e Grêmio, o caso de um jogador que teria sido chamado de macaco por outro atleta. Em geral, as pessoas – jornalistas que comentaram, a diretoria gremista – argumentavam que no campo de futebol você pode falar qualquer coisa, e que se as pessoas fossem se importar com isso, não teria como ter jogo de futebol. Como você vê esse tipo de situação?
 Kabengele - Isso é uma prova daquilo que falei, os brasileiros são educados para não assumir seus hábitos, seu racismo. Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro... Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco? Quando aquele delegado prendeu o jogador argentino no caso do Grafite, todo mundo caiu em cima. Os técnicos, jornalistas, esportistas, todo mundo dizendo que é assim no futebol. Então a gente não pode educar o jogador de futebol, tudo é permitido? Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita a violência física é punida?
 
 Fórum - Como o senhor vê hoje a aplicação da lei que determina a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas? Os professores, de um modo geral, estão preparados para lidar com a questão racial?


 Kabengele - Essa lei já foi objeto de crítica das pessoas que acham que isso também seria uma racialização do Brasil. Pessoas que acham que, sendo a população brasileira uma população mestiça, não é preciso ensinar a cultura do negro, ensinar a história do negro ou da África. Temos uma única história, uma única cultura, que é uma cultura mestiça. Tem pessoas que vão nessa direção, pensam que isso é uma racialização da educação no Brasil.
 Mas essa questão do ensino da diversidade na escola não é propriedade do Brasil. Todos os países do mundo lidam com a questão da diversidade, do ensino da diversidade na escola, até os que não foram colonizadores, os nórdicos, com a vinda dos imigrantes, estão tratando da questão da diversidade na escola.
 O Brasil deveria tratar dessa questão com mais força, porque é um país que nasceu do encontro das culturas, das civilizações. Os europeus chegaram, a população indígena – dona da terra – os africanos, depois a última onda imigratória é dos asiáticos. Então tudo isso faz parte das raízes formadoras do Brasil que devem fazer parte da formação do cidadão. Ora, se a gente olhar nosso sistema educativo, percebemos que a história do negro, da África, das populações indígenas não fazia parte da educação do brasileiro.
 Nosso modelo de educação é eurocêntrico. Do ponto de vista da historiografia oficial, os portugueses chegaram na África, encontraram os africanos vendendo seus filhos, compraram e levaram para o Brasil. Não foi isso que aconteceu. A história da escravidão é uma história da violência. Quando se fala de contribuições, nunca se fala da África. Se se introduzir a história do outro de uma maneira positiva, isso ajuda.
 É por isso que a educação, a introdução da história dele no Brasil, faz parte desse processo de construção do orgulho negro. Ele tem que saber que foi trazido e aqui contribuiu com o seu trabalho, trabalho escravizado, para construir as bases da economia colonial brasileira. Além do mais, houve a resistência, o negro não era um João-Bobo que simplesmente aceitou, senão a gente não teria rebeliões das senzalas, o Quilombo dos Palmares, que durou quase um século. São provas de resistência e de defesa da dignidade humana. São essas coisas que devem ser ensinadas. Isso faz parte do patrimônio histórico de todos os brasileiros. O branco e o negro têm que conhecer essa história porque é aí que vão poder respeitar os outros.
 Voltando a sua pergunta, as dificuldades são de duas ordens. Em primeiro lugar, os educadores não têm formação para ensinar a diversidade. Estudaram em escolas de educação eurocêntrica, onde não se ensinava a história do negro, não estudaram história da África, como vão passar isso aos alunos? Além do mais, a África é um continente, com centenas de culturas e civilizações. São 54 países oficialmente. A primeira coisa é formar os educadores, orientar por onde começou a cultura negra no Brasil, por onde começa essa história. Depois dessa formação, com certo conteúdo, material didático de boa qualidade, que nada tem a ver com a historiografia oficial, o processo pode funcionar.
 
 Fórum - Outra questão que se discute é sobre o negro nos espaços de poder. Não se veem negros como prefeitos, governadores. Como trabalhar contra isso?


 Kabengele - O que é um país democrático? Um país democrático, no meu ponto de vista, é um país que reflete a sua diversidade na estrutura de poder. Nela, você vê mulheres ocupando cargos de responsabilidade, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, assim como no setor privado. E ainda os índios, que são os grandes discriminados pela sociedade. Isso seria um país democrático. O fato de você olhar a estrutura de poder e ver poucos negros ou quase não ver negros, não ver mulheres, não ver índios, isso significa que há alguma coisa que não foi feita nesse país. Como construção da democracia, a representatividade da diversidade não existe na estrutura de poder. Por quê?
 Se você fizer um levantamento no campo jurídico, quantos desembargadores e juízes negros têm na sociedade brasileira? Se você for pras universidades públicas, quantos professores negros tem, começando por minha própria universidade? Esta universidade tem cerca de 5 mil professores. Quantos professores negros tem na USP? Nessa grande faculdade, que é a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), uma das maiores da USP junto com a Politécnica, tenho certeza de que na minha faculdade fui o primeiro negro a entrar como professor. Desde que entrei no Departamento de Antropologia, não entrou outro. Daqui três anos vou me aposentar. O professor Milton Santos, que era um grande professor, quase Nobel da Geografia, entrou no departamento, veio do exterior e eu já estava aqui. Em toda a USP, não sou capaz de passar de dez pessoas conhecidas. Pode ter mais, mas não chega a 50, exagerando. Se você for para as grandes universidades americanas, Harvard, Princeton, Standford, você vai encontrar mais negros professores do que no Brasil. Lá eles são mais racistas, ou eram mais racistas, mas como explicar tudo isso?
 120 anos de abolição. Por que não houve uma certa mobilidade social para os negros chegarem lá? Há duas explicações: ou você diz que ele é geneticamente menos inteligente, o que seria uma explicação racista, ou encontra explicação na sociedade. Quer dizer que se bloqueou a sua mobilidade. E isso passa por questão de preconceito, de discriminação racial. Não há como explicar isso. Se você entender que os imigrantes japoneses chegaram, nós comemoramos 100 anos recentemente da sua vinda, eles tiveram uma certa mobilidade. Os coreanos também ocupam um lugar na sociedade. Mas os negros já estão a 120 anos da abolição. Então tem uma explicação. Daí a necessidade de se mudar o quadro. Ou nós mantemos o quadro, porque se não mudamos estamos racializando o Brasil, ou a gente mantém a situação para mostrar que não somos racistas. Porque a explicação é essa, se mexer, somos racistas e estamos racializando. Então vamos deixar as coisas do jeito que estão. Esse é o dilema da sociedade.
 
 Revista Fórum – como o senhor vê o tratamento dado pela mídia à questão racial?


 Kabengele - A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia racial é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da obrigatoriedade do ensino da história do negro na escola.
 Houve, no mês passado, a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. Os grandes jornais da imprensa escrita não pautaram isso. O silêncio faz parte do dispositivo do racismo brasileiro. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio. O silêncio é uma maneira de você matar a consciência de um povo. Porque se falar sobre isso abertamente, as pessoas vão buscar saber, se conscientizar, mas se ficar no silêncio a coisa morre por aí. Então acho que o silêncio da imprensa, no meu ponto de vista, passa por essa estratégia, é o não-dito.
 Acabei de passar por uma experiência interessante. Saí da Conferência Nacional e fui para Barcelona, convidado por um grupo de brasileiros que pratica capoeira. Claro, receberam recursos do Ministério das Relações Exteriores, que pagou minha passagem e a estadia. Era uma reunião pequena de capoeiristas e fiz uma conferência sobre a cultura negra no Brasil. Saiu no El Pais, que é o jornal mais importante da Espanha, noticiou isso, uma coisa pequena. Uma conferência nacional deste tamanho aqui não se fala. É um contrassenso. O silêncio da imprensa não é um silêncio neutro, é um silêncio que indica uma certa orientação da questão racial. Tem que não dizer muita coisa e ficar calado. Amanhã não se fala mais, acabou.

 

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de agosto. Nas bancas.

Camila Souza Ramos e Glauco Faria

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adelina Braglia às 19:44

Estórias da carochinha malvada.

Sábado, 22.08.09

 Papai Lula impingiu à família brasileira uma deslavada mentira quando anunciou que agora estávamos emprestando dinheiro pro FMI.

 

Tolerante com o “papi”, não gastei meu tempo para desmenti-lo. Mas agora como ele é um disciplinado respondedor de e-mails,contumaz contador de lorotas e estou desocupada nesta amanhecer de sábado, transcrevo sua resposta pra um filhinho:

 

" P: De que maneira o empréstimo concedido ao FMI pode ser benéfico para o Brasil?

R: Durante muito tempo, o Brasil era devedor do FMI e obedecia, como um menino bem comportado, às ordens de seus técnicos. Eu cansei de carregar faixas de protesto e de gritar: “Fora FMI”. E agora, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, e mesmo em meio a uma grave crise econômica, o Brasil não apenas não pediu apoio financeiro, como vai repassar US$ 10 bilhões à instituição, na forma de empréstimo, o que não compromete nossas reservas. Nossa condição é a de que o dinheiro sirva para ajudar a economia dos países mais pobres e aqueles em desenvolvimento. Não se trata apenas de uma questão humanitária. Hoje, nenhum país é uma ilha, nenhum vive unicamente por seus próprios meios. Enquanto os demais países não emergirem da crise, nós não estaremos totalmente a salvo porque dependemos da saúde econômica de todos para normalizar o fluxo do comércio internacional. A verdade é que passamos a ser ouvidos. Hoje, nós é que estamos dizendo o que o FMI deve fazer e não o contrário, como sempre acontecia."



E aí, como o Papai anda mentindo demais, vamos estabelecer que:

 

1 – o Brasil é cotista do FMI. Os 10 bilhões foram o pagamento da cota. Nequinha de empréstimo. É c-o-t-a, papai.

 
 

2 -  com isto o Brasil vai continuar a apitar pouco, porque somos representantes de um grupo "poderosíssimo" que inclui o Haiti,  o Panamá, a  Colômbia, o Suriname, entre outros com zero importância internacional para uma instituição canhestra e danosa como o Fundo, cujo objetivo é garantir (?) o equilíbrio monetário (?).

 
 

3 – os nossos 10 bilhões não movem nosso direito a voto  porque alguns países, como EUA, Japão, Canadá, França, Itália e Inglaterra e mais uns três ou quatro, detém sozinhos mais da metade do poder de voto.

 
 

Bem, Pai, conta outra pra gente dormir. 


Autoria e outros dados (tags, etc)

Adelina Braglia às 07:59

Requiescat..etc e tal.

Sexta-feira, 21.08.09

Assisti na íntegra o discurso do senador Aloísio Mercadante. Volteios em torno de si mesmo e de um partido que se partiu não sei bem quando e foi entregue em bandas aos mercenários.

 

Um analista de olhar enviesado pela manutenção da sua parcela (?) de poder, o senador navegou pelos ataques  – criticando Marina por deixar o PT para uma disputa eleitoral – assumiu a humilhante condição de quem trombeteou que ia e não foi, justificando-se com a parcela do partido que esperava a manutenção da palavra, e, pifiamente, terminou imitando Dom Pedro: diga ao povo que fico. Ou melhor, eu fico porque o povo não está nem aí pra minha encenação.

 

Mercadante imitou seu Guru: publicamente desautorizado pelo bufão Berzoini, rasgou o passado – o dele, Mercadante, alíás, muito mais consistente do que o do Guru – agarrou-se à carta do Presidente e, finalmente, fez o que todos, ou quase todos, achavam que faria: ficou.

 

Não será ele o coveiro do Senado, certamente. Da mesma forma que justificou Sarney no discurso, alegando que as patifarias são centenárias, eximiu-se previamente da própria culpa.

 

Considero este post seu anúncio fúnebre: descanse em paz, senador.  Está em boa companhia agora. Alinha-se definitivamente a Collor, Wellington Salgado, Renan e outros párias desta triste república.

 

Que Santo Ambrósio lhe garanta o purgatório.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vamos celebrar a amizade.

Terça-feira, 11.08.09

 

 

Ao saber do falecimento do nosso querido Juca, o amigo de longas datas, Padre Cláudio, pediu-nos para realizar uma das últimas homenagens a este maravilhoso ser que ao longo da vida conquistou tantas amizades, vários apelidos e lugares. Dessa homenagem participa com dedicação e carinho, Vera Arruda, amiga de Juvêncio, e parceira no trabalho e na fé de Padre Claúdio.
Tal homenagem será a missa de 30° dia de falecimento do Juva, que acontece nesta quinta-feira (13 de agosto), na Igreja do Rosário da Campina às 18h30.
Felizes e agradecidos por termos vivido ao lado dele, convidamos os amigos para lembrarmos, unidos, o 30º dia da chegada do Juca à sua nova morada.
 
Marise, Joyce, Lívia, Lygia e Lucas. Dodó, Angêla e Vicente. Silvia, Márcio, Marina e Luiza. Mirtes e Wilson Morbach. Marcelo Dias.
 
Dia: 13 de agosto (quinta-feira)
Local: Igreja do Rosário da Campina (Padre Prudêncio com Aristides Lobo, Comércio)
Horário: 18h30
Celebrante: Padre Cláudio
 
 
 
(Texto: Quinta Emenda)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adelina Braglia às 20:32

Pai.

Domingo, 09.08.09

 Para o meu pai, simpático fantasma a me acompanhar.

 

Para o meu irmão, um bom pai.

 

Para os meus amigos que são pais e para aqueles que ainda os  têm.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adelina Braglia às 12:21


Comentários recentes

  • Anónimo

    Meu pai foi um desses homens procuro por uma foto...

  • Adelina Braglia

    Salve, Cris.Mudamos todos, nós, os blogs, o Juca q...

  • cris moreno

    saudades. estava me lendo no travessia e vi como b...

  • Adelina Braglia

    Amém! Beijo.

  • Marga

    Querida, bom lhe ter de volta aos textos que retra...






subscrever feeds



Pág. 1/2