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E viva o Bené Monteiro!

Quarta-feira, 30.01.08

 

A Quem São Eles, tradicional escola de samba de Belém, homenageia com seu samba enredo este ano  Benedicto Monteiro, fazendo valer o verso de Nelson Cavaquinho:

"Se alguém quiser fazer por mim

que faça agora..(...)

Me dê as flores em vida

e carinho, a mão amiga

para aliviar meus ais

depois que eu me chamar saudade

não preciso de vaidade

quero preces e nada mais."

 

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Hoje ela canta aqui...e ali, no teatro do Gasômetro.

Sexta-feira, 25.01.08

 

 

 

Ela é Monica Salmaso.

A primeira música é Doce na feira, de Jair do Cavaquinho e Altair Costa. Jair foi vizinho e parceiro de Nelson Cavaquinho. Já mais esquecido do que ele.

 

Depois há uma suite de Caymmi  e uma maravilha chamada Canto em qualquer canto, de Ná Ozzetti e Itamar Assumpção:

 

Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada, aviso
Trago facão, paixão crua
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra
Eu já canto, pio e silvo
Se fosse minha essa rua
O pé de ypê tava vivo

Pro topo daquela serra
Vamos nós dois, vídeo e livros
Vou ficar na minha e sua
Isso é mais que bom motivo
Gorjearei pela terra
Para dar e ter alívio
Gorjeando eu fico nua
Entre o choro e o riso

Pintassilga, pomba, melroa
Águia lá do paraíso
Passarim, mundo da lua
Quando não trino, não sirvo
Caso a bela com a fera
Canto porque é preciso
Porque esta vida é árdua
Pra não perder o juízo

 

 

 

E mais.....

 

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Adelina Braglia às 13:21

Eduardo Galeano e os nossos paradoxos.

Sexta-feira, 25.01.08
“Dentro em breve será publicado um livro meu chamado ''Espejos''. É algo assim como uma história universal, e desculpem o atrevimento. ''Posso resistir a tudo, menos à tentação'', dizia Oscar Wilde, e confesso que sucumbi à tentação de contar alguns episódios da aventura humana no mundo do ponto de vista dos que não saíram na foto. Pode-se dizer que não se trata de fatos muito conhecidos. Aqui resumo alguns, apenas uns poucos.”  (O paradoxo andante – Eduardo Galeano)
 
 
Quando foram desalojados do Paraíso, Adão e Eva mudaram-se para África, não para Paris. Algum tempo depois, quando seus filhos já se haviam lançado pelos caminhos do mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no Texas.
 
Também a álgebra foi inventada no Iraque. Foi fundada por Mohamed al Jwarizmi , há 120 anos, e as palavras algoritmo e algarismo derivam do seu nome.
 
Os nomes costumam não coincidir com o que nomeiam. No British Museum, por exemplo, as esculturas do Partenon chamam-se ''mármores de Elgin'', mas são mármores de Fídias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.
 
As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu – a bússola, a pólvora e a imprensa – haviam sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo o que a Europa reinventou.
 
Os hindus souberam antes de todos que a Terra era redonda e os maias haviam criado o calendário mais exato de todos os tempos.
 
Em 1493, o Vaticano presenteou a América à Espanha e obsequiou a África negra a Portugal, ''para que as nações bárbaras sejam reduzidas à fé católica''. Naquele tempo a América tinha quinze vezes mais habitantes que a Espanha e a África negra cem vezes mais que Portugal. Tal como havia mandado o Papa, as nações bárbaras foram reduzidas. E muito.
 
Tenochtitlán, o centro do império azteca, era de água. Hernán Cortés demoliu a cidade pedra por pedra e, com os escombros, tapou os canais por onde navegavam 200 mil canoas. Esta foi a primeira guerra da água na América. Agora Tenochtitlán chama-se Cidade do México. Por onde corria a água, agora correm os automóveis.
 
O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século 19 exterminou os índios da Patagônia.
 
A avenida mais longa do Uruguai tem o nome do general Rivera, que no século 19 exterminou os últimos índios charruas.
 
John Locke, o filósofo da liberdade, era acionista da Royal Africa Company , que comprava e vendia escravos.
 
No momento em que nascia o século 18, o primeiro dos bourbons, Felipe V, estreou o seu trono assinando um contrato com o seu primo, o rei da França, para que a Compagnie de Guinée vendesse negros na América. Cada monarca ficava com 25% dos lucros.
 
Nomes de alguns navios negreiros: Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade.
 
Dois dos Pais Fundadores dos Estados Unidos desvaneceram-se na névoa da história oficial. Ninguém se recorda de Robert Carter nem de Gouverner Morris . A amnésia recompensou os seus atos. Carter foi a única personalidade eminente da independência que libertou seus escravos. Morris, redator da Constituição, opôs-se à cláusula estabelecendo que um escravo equivalia às três quintas partes de uma pessoa.
 
''O nascimento de uma nação'' , a primeira super-produção de Hollywood, foi estreado em 1915, na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, aplaudiu-a de pé. Ele era o autor dos textos do filme, um hino racista de louvação à Ku Klux Klan.
 
Algumas datas: Desde o ano 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. As suas vozes eram impuras, devido àquele caso da Eva e do pecado original.
 
No ano de 1783, o rei da Espanha decretou que não eram desonrosos os trabalhos manuais, os chamados ''ofícios vis'', que até então implicavam a perda da fidalguia.
 
Até o ano de 1986 foi legal o castigo das crianças, nas escolas da Inglaterra, com correias, varas e porretes.
 
Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, em 1793 a Revolução Francesa proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A militante revolucionária Olympia de Gouges propõe então a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A guilhotina cortou-lhe a cabeça.
 
Meio século depois, outro governo revolucionário, durante a Primeira Comuna de Paris, proclamou o sufrágio universal. Ao mesmo tempo, negou o direito de voto às mulheres, por unanimidade menos um: 899 votos conta, um a favor.
 
A imperatriz cristã Teodora nunca disse ser uma revolucionária, nem nada que se parecesse. Mas há 1500 anos o império bizantino foi, graças a ela, o primeiro lugar do mundo onde o aborto e o divórcio foram direitos das mulheres.
 
O general Ulisses Grant, vencedor da guerra do Norte industrial contra o Sul escravocrata, foi a seguir presidente dos Estados Unidos. Em 1875, respondendo às pressões britânicas, respondeu: ''Dentro de 200 anos, quando tivermos obtido do protecionismo tudo o que ele nos pode proporcionar, nós também adotaremos a liberdade de comércio''. Assim, pois, em 2075 o país mais protecionista do mundo adotará a liberdade de comércio.
 
''Botinzito'' foi o primeiro cão pequinês que chegou à Europa. Viajou para Londres em 1860. Os ingleses batizaram-no assim porque era parte do botim extorquido à China no fim das longas guerras do ópio. Vitória, a rainha narcotraficante, havia imposto o ópio a tiros de canhão. A China foi convertida num país de drogados, em nome da liberdade, a liberdade de comércio.
 
Em nome da liberdade, a liberdade de comércio, o Paraguai foi aniquilado em 1870. Ao cabo de uma guerra de cinco anos, este país, o único das Américas que não devia um centavo a ninguém, inaugurou a sua dívida externa. Às suas ruínas fumegantes chegou, vindo de Londres, o primeiro empréstimo. Foi destinado a pagar uma enorme indenização ao Brasil, Argentina e Uruguai. O país assassinado pagou aos países assassinos, pelo trabalho que haviam tido a assassiná-lo.
 
O Haiti também pagou uma enorme indenização. Desde que, em 1804, conquistou a sua independência, a nova nação arrasada teve que pagar à França uma fortuna, durante um século e meio, para espiar o pecado da sua liberdade.
 
As grandes empresas têm direitos humanos nos Estados Unidos. Em 1886, a Suprema Corte de Justiça estendeu os direitos humanos às corporações privadas, e assim continua a ser. Poucos anos depois, em defesa dos direitos humanos das suas empresas, os Estados Unidos invadiram dez países, em diversos mares do mundo.
 
Mark Twain, dirigente da Liga Antiimperialista, propôs então uma nova bandeira, com caveirinhas em lugar de estrelas. E outro escritor, Ambroce Bierce, confirmou: ''A guerra é o caminho escolhido por Deus para nos ensinar geografia''.
 
Os campos de concentração nasceram na África. Os ingleses iniciaram o experimento, e os alemães desenvolveram-no. Depois disso, Hermann Göring aplicou na Alemanha o modelo que o seu papa havia ensaiado, em 1904, na Namíbia. Os professores de Joseph Mengele haviam estudado, no campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negras.
 
Em 1936, o Comitê Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a seleção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a seleção da Áustria, o país natal do Führer. O Comitê Olímpico anulou a partida.
 
A Hitler não lhe faltaram amigos. A Rockefeller Foundation financiou investigações raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-Cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e classificação dos judeus, e essa foi a primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados.
 
Em 1953, estourou o protesto operário na Alemanha comunista. Os trabalhadores se lançaram às ruas e os tanques soviéticos se ocuparam de calar-lhes a boca. Então Bertol Brecht propôs: ''não seria mais fácil o governo dissolver o povo e eleger outro?''
 
Operações de marketing. A opinião pública é o target. As guerras se vendem mentindo, como se vendem os carros.
 
Em 1964, os EUA invadiram o Vietnã, pois o Vietnã havia atacado dois barcos dos EUA no golfo de Tonkin. Quando a guerra havia destruído uma multidão de vietnamistas, o ministro da Defesa, Robert McNamara, reconheceu que o ataque de Tonkin não havia existido. Quarenta anos depois, a história se repetiu no Iraque.
 
Milhares de anos antes de que a invasão norte-americana levasse a civilização ao Iraque, nessa terra bárbara havia nascido o primeiro poema de amor da história universal. Em língua sumeria, escrito no barro, o poema narrou o encontro de uma deusa e um pastor. Inanna, a deusa, amou essa noite como se fosse mortal. Dumuzi, o pastor, foi imortal enquanto durou essa noite.
 
Paradoxos andantes, paradoxos estimulantes: Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais lindas esculturas da era colonial americana.
 
O livro de viagens de Marco Polo, ''Aventura da liberdade'', foi escrito na prisão de Gênova.
 
"Don Quixote de La Mancha", outra aventura de liberdade, nasceu na prisão de Sevilla.
 
Foram netos de esclavos dos negros que criaram o jazz, a mais livre das músicas.
 
Um dos melhores violinistas de jazz, o cigano Django Reinhardt, tinha não mais do que dois dedos em sua mão esquerda.
 
Não tinha mãos Grimod de la Reynière, o grande mestre da cozinha francesa. Com ganchos escrevia, cozinhava e comia.
 

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Adelina Braglia às 11:18

Unámonos como hermanos que nádie nos vencera....

Quinta-feira, 24.01.08

 

 
A cantata Santa Maria de Iquique, composta e cantada pelo conjunto chileno Quilapayun, é a mais bonita que conheço. Certamente esse “mais bonita” é um juízo de valor muito, muito pessoal. Vou concordar que há outras belas, mas essa é a mais bonita.
 
A cantata é de um tempo em que ter esperanças não era doença de baixo contágio: era obrigação. Ainda que a repressão, a insegurança e o medo reduzissem - ou ampliassem? - o espectro do sonho.
 
Iquique é uma cidade portuária do Chile, onde os trabalhadores exploravam o salitre. E, em 1907, em meio a uma greve geral contra as péssimas condições de trabalho, são reprimidos violentamente pelo exército. Ao se refugiarem numa escola - a escola Santa Maria - são massacrados.
 
Eu tenho o disco, ganhei em 1974. Sim, moçada,  D-I-S-C-O - e agora falta só um toca-discos! Isso. Vou providenciar urgentemente a compra de um, pois descubro minhas raridades encaixotadas e não gosto mais de esquecer o que é bom. Mas, o  youtube garantiu ouvirmos parte da cantata, Que dira el santo padre, com o Quilapayun na sua nova formação:
 
 
 
 

E ouve-se depois o canto final e o  vibrante refrão:

 

...unámonos como hermanos que nádie nos vencera..."
 
 
 
Atravessamos aquela década com a firme convicção de que éramos uma américa latina, embora nosso sangue lusitano teimasse em justificar que nos apartássemos de los hermanos. Mas nossa identidade era tão forte - na exploração e na pobreza -  que acreditávamos na superação da falta de consanguinidade!
 
Sob tudo isso, floresceu um movimento sindical pujante, um movimento estudantil que prometia boas lideranças, e eu já não sei mais como foi que perdemos o trem da história. As grandes lideranças desse período que se sobressaíram no século 21 são Luiz Inácio Lula da Silva, pelo movimento sindical, e José Dirceu, pelo movimento estudantil.
 
Ai, Santo Ambrósio!!!
 
Vamos lá reviver a história, refrescar a memória, para ter músculos para prosseguir.
PS: Esse post é pra você, Aluísio.
 
 

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Adelina Braglia às 16:49

Para Ana Cleide.

Quarta-feira, 23.01.08

 

 

A melancolia tem a voz da madrinha e a imagem das pequenas manchas roxas que quando apareciam provocavam nela, de imediato, a frase: “Isso é melancolia”. Não sabia ela que seu diagnóstico era tão preciso.
 
Mas, na minha cabeça de criança e adolescente, melancolia era um estado de espírito, e não uma doença. Era estar ensimesmada, triste, “melancólica”. E, na juventude, veio uma música, Misty, que para mim era a expressão do meu entendimento de melancolia. Na voz de Johnny Mathis, talvez o mais melancólico cantor norte-americano. E havia também as belas gravações de Sara Vughan, que canta aí embaixo, e de Ella Fitzgerald. O nosso melancólico Emílio Santiago também fez dela uma bela gravação. Mas percebo agora que a melodia de Errol Garner - e nem tanto a letra, de Johnny Burke - é que trazia o sentimento da melancolia.
 

 

 

Mas agora há uma nova imagem, compatível com a vida adulta. E necessária para combater a perigosa inércia, que fragiliza e quase extermina o melancólico.
 
A Melancolia, de Albrecht Dürer:
 

 

 

 

E, felizmente, há mais hoje: um quase-desejo de resistir.  E substituir, como fundo musical da vida, Misty por Paradeiro.

 
Eu considero um bom avanço, Ana ...rsrsrs....

 

 

 

 

 

 

Haverá paradeiro
Para o nosso desejo
Dentro ou fora de um vício?

Uns preferem dinheiro
Outros querem um passeio
Perto do precipício.

Haverá paraíso
sem perder o juízo e sem morrer?

Haverá pára-raio
Para o nosso desmaio
No momento preciso?

Uns vão de pára-quedas
Outros juntam moedas
antes do prejuízo

Num momento propício
Haverá paradeiro para isso?

Haverá paradeiro
Para o nosso desejo
Dentro ou fora de nós?


(Arnaldo Antunes - Marisa Monte)

 

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Desafinados.

Sábado, 19.01.08

 

Marga,

Eu sei que há gravação mais bonita do que essa. Mas, eu gosto muito - você sabe - do Arnaldo Antunes, mesmo reconhecendo que como cantor ele é um maravilhoso...poeta. E que, assim como eu nos sentimentos, ele DESAFINA.

Mas é ele que eu quero que cante aqui pra você.

Obrigada, amiga e companheira. Da crise e das saídas.

Até já. 

  

 

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Adelina Braglia às 15:30

Transtempo.

Sexta-feira, 18.01.08

 

 

 

 

A notícia do Estadão remete ao artigo do César Queiroz Benjamin,  cada vez mais atual:

 

" (...) A honra de pessoas e o cadáver de Celso Daniel ficaram no meio do caminho, mas Lula chegou onde queria chegar. Depois de vários anos de sucessivas demonstrações de vassalagem, foi ungido. (Brizola, que enfrentou a Globo em defesa de Lula, foi destruído. 
 
 (...)
 
 O esquema atual é sustentado por uma aliança paradoxal, que vem sendo renovada em cada eleição, dos mais ricos, que comandam sempre, com os mais pobres, que apenas votam a cada quatro anos. Essa aliança tem como alvo preferencial o mundo do trabalho e suas instituições. Os direitos associados ao trabalho, jamais universalizados, são denunciados como privilégios, num país em que os verdadeiros privilegiados são invisíveis à grande massa da população. O ressentimento popular contra a desigualdade é usado para destruir as ilhas de cidadania, que deveriam ser justamente os pontos de Arquimedes onde a Nação poderia apoiar suas alavancas para desenvolver-se, puxando os que ficaram para trás.
Collor inaugurou essa aliança no terreno simbólico. Fernando Henrique deu seqüência a ela, utilizando-se do Plano Real, que permitiu uma convergência momentânea de interesses tão díspares. Hoje, Lula é quem faz a ligação, que agora é simbólica (pelas origens dele) e material: oferece por ano R$ 150 bilhões em juros para os mais ricos e R$ 10 bilhões, pulverizados, em bolsa-família para os mais pobres (...)"
 

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Adelina Braglia às 05:36

Outro poeta.

Quinta-feira, 17.01.08

 

 

"deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias..."

 

 

(Al Berto - Trecho do poema  notas para o diário.)

 

 

 

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Adelina Braglia às 16:56

Parodiando o Poeta (*)

Quinta-feira, 17.01.08

 

Uma Pessoa ama no que tem o que não tem quando ama,
disse o Poeta ali transcrito.
E pareceu subentendido no poema
que quando amamos no que temos o que não temos quando amamos,
esse sentimento é frustrante porque necessariamente bom.
Seria isso dizer que só amamos as virtudes, e se assim fosse,
- Ah! Seria tão bela a humanidade! -
invejaríamos apenas boas qualidades.
Por imitação ou osmose, seríamos apenas generosos.
bons, fraternos, solidários.
Viveríamos a doce ilusão de que a Outra não é também o espelho
aaquilo que somos e não gostamos,
ou do que ressaltamos em nós.
E por nos olharmos nela como quem olha parte do seu rosto num naco de espelho,
nos aborrece ser também o que não admiramos.
 
O barco pára, mas eu larguei os remos antes disso,
numa margem da qual me afastei conscientemente.
E digo isso sem angústia, porque de nada eles me serviriam:
eu não sei remar. E aprender, nunca quis.
Deixei-me ir , “de bubuia”, consciente do risco:
fiei-me sempre no fato de saber boiar.
E, suicida potencial,
- mas não daquelas que literalmente põem fim à vida -
escolhi, mesmo com dor,
os rios serenos ao mar revolto.
 
Deixa que eu aproveite o verso do Poeta para afirmar:
não há beijos de mel em boca alguma.
Beijos são assim: boca na boca,
sensação boa ou sensação ruim.
E eu, particularmente, nunca sonhei com bocas.
Sonhei com bocas compondo rostos onde os olhos sempre se destacaram.
E as bocas tinham mãos, tinham calor no abraço.
E um riso solto quando havia razões para rir.
Não consigo inventar razões de riso:
elas precisam existir, para que eu me alegre.
 
Meus braços não vingam mágoas.
Eles abraçam forte, se a vontade vem de dentro,
ou educadamente, quando é necessário e eu me obrigo.
E ainda quando são assim, educados,
são abraços e só desejam o bem.
Não abraço quem não amo.
Apenas não amanheço todos os dias com a fraternidade exposta na vitrine.
Meus braços não me vingam.
São instrumentos de paz.
O que me vinga é a minha própria insanidade,
Que cultivo, reconheço.
E gosto.
 
Amei pouco.
Numa Outra amei a solidariedade,
o despego aos seus próprios desejos enquanto me fortalecia com a sua presença e o seu amor,
para eu alcançar os meus.
Desse amor egoísta não me vanglorio e me arrependo,
mas arrependimento é um sentimento inútil,
que não alivia a dor do outro.
 
No Outro amei o apego ao risco,
num Outro os olhos vivos, as mãos serenas, a fala mansa,
e numa Outra a enorme aptidão para a felicidade.
 
E são tão poucos os meus amores,
- e cada um foi um pouco aquilo que eu era
e o que eu  nunca consegui ser –
que seus retratos na parede da memória não compõem nenhum modelo.
Quem sabe tivesse eu amado mais!
Não, não acrescento “melhor”,
porque amei cada um com o que de melhor eu pude ser.
 
Por isso te incomoda minha falta de padrão,
não busco em você a solidariedade,
o apego ao risco,
a fala mansa
ou a aptidão para a felicidade.
Não tenho modelos. Não busco nada.
Gosto ou não gosto, a cada amor
 
As pessoas se completam?
Mentira.
Elas se atraem e se repelem e estar junto é a capacidade de lidar com isso,
numa química de alegria e dor.
E nem sempre a primeira prevalece sempre.
E isso não quer dizer nada além disso.
 
Não gosto de re + começar.
Gosto de continuar, tentando não repetir erros anteriores,
e se perceber que não há caminho,
ou que é mais difícil isso do que aquilo,
o barco sem remos onde navego permanece na água.
E segue, ainda que mais devagar.
Porque não tenho também a presunção nem o desejo
De ser a grande Outra,
Aquela a quem o Poeta diz:
 
Dá-me as mãos, a boca, o ter ser. 
Façamos desta hora um resumo 
Do que não poderemos ter. 
Nesta hora, a  única, 
Sê a Outra.”
Eu não sou essa. Não quero ser.
 
 

(*) Sobre o poema  "A OUTRA - Amamos sempre no que temos" , Fernando Pessoa.

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Adelina Braglia às 11:51

Deixa...

Terça-feira, 15.01.08

 

Deixa que eu escape às vezes, porque ainda assim eu não estarei distante de você.
Estarei apenas fora do alcance das suas mãos.
 
Deixa que eu me afaste de você, indo cabeça a dentro, para espanar as memórias e as aflições. Essa é uma tarefa que preciso fazer sozinha. E eu sempre volto.
 
Não se zangue se em alguns momentos eu pareço não ouvir ou se meus olhos não se fixam nos seus. Ainda assim eu a ouço e vejo. Apenas não consigo retornar com a pressa que você precisa.
 
Não se perca de mim, perdendo-se assim nas coisas pequenas do cotidiano. Não é verdade que são elas as mais importantes. Elas são apenas as coisas pequenas do cotidiano.
 
Dê descontos à minha preguiça, ao meu ainda não recuperado ânimo. Considere, sempre, que eu tenho, quem sabe por herança genética, um lado cinzento. E nele eu habito sozinha.
 
E que é improvável que eu seja quem não sou. E que se é a isso que se chama egoísmo, essa é a minha doença adicional. Aliada à melancolia diagnosticada.
 
E quando eu me perder de você, às vezes - porque é da minha natureza - leia o poeta e relaxe, enquanto isso corresponder ao que você necessita:
 
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
 
 (Fernando Pessoa)

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