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Quadratura do círculo.

Segunda-feira, 29.01.07

 

 

A cada braçada eu repasso a andança,
e a travessia cansa.
Mas, reluto em afogar-me.
 
E penso no seu colo e quero seu regaço
mas me faço quase-heróica
e me desfaço em silêncios inúteis.
 
Silêncios relativos, reconheço, pois sei o tanto que me queixo.
E retribuis, e aconselhas, e afagas minha aparente mágoa.
 
Mas, do que eu calo, não desconfias.
E se às vezes eu tenho raiva porque não me adivinhas,
quase sempre eu sinto alívio, porque não me conheces.

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Para a moça de 453 anos.

Quinta-feira, 25.01.07

 

 

 

Numa das mais movimentadas avenidas de São Paulo,

quase não havia carros transitando hoje.

São Paulo está curtindo seus 453 anos,

aliviada do peso do tráfego intenso,

graças ao feriado do seu aniversário!

Estranha esta minha cidade brega e chic,

violenta e modorrenta,

elitista e democrática.

Meninos se oferecem para lavar parabrisas de carros cujo pneu tem um preço

cujo total não lhes será garantido em 10 anos de trabalho naquilo que fazem!

Homens e mulheres - hoje também são poucos -

passeiam pelos sinais e oferecem flores,

carregadores de celular,

panos-de-prato,

isqueiros, limpadores de parabrisa,

chicletes, bombons.

Passear por São Paulo num dia como hoje,

sem as buzinas infernais,

sem o transito que alucina e desatina,

me permite perceber pequenas flores azuis no canteiro central da avenida Brasil.

São Paulo da cratera do metro,

do sanduíche do Mercado Central,

do Parque do Ibirapuera

e do esganiçado e falso grito do Ipiranga!

São Paulo do mais ativo movimento sindical,

do melhor acesso aos direitos da cidadania, ainda que tão precários,

São Paulo que elege Jânio,

Erundina e Serra, que nada têm de comum entre si,

e que ainda acha Maluf bom porque "rouba, mas faz!"

Um abraço, São Paulo.

Ao te abandonar há tantos anos,

jamais pensei que viria um dia a me apaixonar por ti.

 

 

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Ralinho chinês.

Terça-feira, 23.01.07

 

 

Há noites mais longas e dias mais áridos que os demais.

Quando eles vêm como gangues,

e me atacam assim, em duplas,

- a noite mais longa emendando no dia mais árido -

perco-me na minha irracionalidade,

tropeço nas minhas indefinições,

escorrego nas minhas firmes incertezas!

E penso quase sempre no ralo chinês,

aquele que, se colocado na pia,

impede que qualquer detrito entupa os canos.

E penso que deveriam vende-los para proteger a alma.

 

 

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Sem título.

Domingo, 21.01.07

 

Começo a conhecer-me. Não existo.


Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,


ou metade desse intervalo, porque também há vida...


Sou isso, enfim...


Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.


Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.


É um universo barato.

 

(Álvaro de Campos)

 

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Cenas de São Paulo.

Domingo, 21.01.07

 

 

 

... a instalação...

 

 

... e o céu que nos protege...

 

 

 

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Adelina Braglia às 02:26

Pra aguentar o cotidiano, ou para enfrentá-lo....

Quinta-feira, 18.01.07

 

 

Aluizio mandou Baudelaire.

Lembrei do Drummond.

Deu uma bela combinação.

Agreguei a foto, que havia nomeado "dois irmãos".

Modestamente, achei perfeito!

 

 

 

É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas ­ de quê? De vinho, de poesia ou de virtude,
como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes,
nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso,
na desolada solidão do vosso quarto,
despertardes,
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge,
a tudo o que geme,
a tudo o que rola,
a tudo o que canta,
a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
 É a hora da embriaguez!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

(Embriagai-vos- Charles Baudelaire)
 
É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o fim do mundo.
 
 
(Poema da necessidade - Carlos Drummond de Andrade)

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O Brasil oficial.

Quarta-feira, 17.01.07

 

 

Este é o retrato do Brasil que desanima.
 
Para o Programa que efetivamente poderia criar condições (financiamento e capacitação) para gerar trabalho e renda - o apoio ao microcrédito, política importante quando o emprego formal “dança” e a empregabilidade é oficialmente estimulada - o desembolso orçamentário atingiu 5,91%.
 
Já para o desenvolvimento sustentável da aqüicultura (não confundir com agricultura!) foi cumprido 54,18% do orçamento programado para 2006, seguido de perto pelo percentual pago pelo desenvolvimento sustentável da pesca (48,35%).
 
Este desempenho exitoso da aquicultura, no entanto,  fica comprometido, se rememorarmos as denúncias de desvios de recursos públicos destinados às colônias de pescadores . ([1])
 
O Brasil Quilombola está no quadro para demonstrar o “compromisso” com a questão racial: apenas 26,96% do orçamento, por si só baixo, foi executado.
 
Quanto ao desenvolvimento da Amazônia, que sosseguem os ambientalistas. A definição da ação didaticamente explicita: os recursos são para apoiar o desenvovimento da Amazônia Ocidental e de Macapá e Santana do Amapá certamente duas localidades merecedoras de apoio, mas cujos dramas desenvolvimentistas  são privilégio do senador Sir Ney!!! ([2])
 
Ah, sim! Os recursos destinados ao programa Bolsa-Família, chamado pomposamente de Transferência de Renda com Condicionalidades -  foram quase totalmente autorizados e pagos (91,25%).
 
A propósito, eu sei que o termo “condicionalidades” refere-se ás condições para o acesso ao benefício: ter os filhos matriculados na escola, por exemplo. Não quero que me sigam no raciocínio malicioso sobre outras “condicionalidades” impostas aos beneficiários.
 
 
 

Programa
Dotação
Empenhado
Pago
% Pago/
Autorizada
Autorizado
1387 - Microcrédito Produtivo Orientado
1.500.000
117.871
88.721
5,91
1342 - Desenvolvimento Sustentável da Pesca
77.486.753
50.377.255
37.462.140
48,35
1343 - Desenvolvimento Sustentável da Aqüicultura
20.407.129
14.600.945
11.055.877
54,18
1335 - Transferência de Renda com Condicionalidades - Bolsa Família
8.911.703.950
8.231.021.853
8.131.734.994
91,25
1020 - Interiorização do Desenvolvimento da Amazônia Ocidental
55.415.889
26.779.445
20.358.371
36,74
1336 - Brasil Quilombola
52.324.263
18.976.546
14.105.671
26,96
 
Fonte: http://contasabertas.uol.com.br/Siafi2006/basica-programa.asp

 ([1])
http://www.fundacentro.sc.gov.br/acquaforum/principal/ver_noticias.php?not=1008 
http://www2.prr4.mpf.gov.br/phoenix/nucleos/manifscp
     
 ([2) Não, não tive vontade de checar se, dos recursos autorizados, a maior parte foi para o Amapá, terra adotiva do senador. Mas o link está aí acima. Divirtam-se.
 

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Adelina Braglia às 14:43

Brasil cordial, 5.

Quarta-feira, 17.01.07

 

" Professores negros sumiram da fotografia - A política de ação negativa existe. Ela branqueou o magistério do Rio de Janeiro nos anos 20

O PROFESSOR AMERICANO Jerry Dávila, da Universidade da Carolina do Norte, escreveu um livro que permite uma visita às políticas de ações negativas que afastaram os negros do andar de cima do sistema educacional brasileiro. É "Diploma de Brancura: Raça e Política Social no Brasil, 1917-1945" ("Diploma of Whiteness", publicado em 2003, infelizmente inédito em português). No início do século 20, havia um número razoável de professores negros na rede de ensino municipal do Rio de Janeiro. Dez anos depois, sumiram.

Argumenta-se contra as ações afirmativas com base no critério de mérito: o negro tem acesso a tudo, desde que tenha capacidade. Dávila captou um momento curioso na história da meritocracia pedagógica nacional. Um capítulo do seu livro chama-se "O que aconteceu aos professores de cor?" Ele achou a pergunta num arquivo excêntrico, o acervo de 15 mil imagens de Augusto Malta, fotógrafo oficial da prefeitura da cidade. Contratado por Pereira Passos, Malta trabalhou de 1900 a 1936. Registrava obras, cerimônias e paisagens. Dávila separou cerca de 400 fotografias de escolas, salas de aula e grupos de professores. Resulta que, antes de 1920, cerca de 15% dos professores fotografados eram "de cor", no dialeto da época, afrodescendentes no de hoje. Muitos deles estavam em escolas vocacionais. Era negro o diretor da escola municipal que formava professores. Depois de 1939, a percentagem cai para 2%. Há registros esparsos e superficiais da ocorrência desse mesmo fenômeno em Campinas e Pelotas, onde algumas professoras viraram costureiras. (É possível que o arquivo de Malta guarde outra surpresa: podem ter sumido também os jornalistas negros.)

Os mestres negros dos anos 20 foram substituídos por professoras brancas. Dez anos depois, surgiu o Instituto de Educação, a gloriosa escola normal do Rio. Era uma instituição modelo, onde as alunas passavam por um duro exame de qualificação intelectual e médico. Havia até cursinhos preparatórios para normalistas. Exigia-se um custoso enxoval, com luvas brancas. Uma filha de ferroviário só conseguiu comprar os uniformes porque sua família cotizou-se. Dávila esclarece: não há indício de normas destinadas a excluir deliberadamente os negros, havia apenas o sonho de fabricar uma "fina flor" de educadores.

Continuando sua pesquisa nos acervos fotográficos, Dávila foi ao álbum de formatura das normalistas de 1942. De 171 professoras diplomadas, só 12 (7%) eram afrodescendentes. Conseguira-se o branqueamento dos diplomas. Foi um processo elitista, racional e bibliograficamente sofisticado. Fernando de Azevedo, secretário de educação do Distrito Federal de 1926 a 1930, acreditava que "sem a criação de elites capazes de guiá-las, a educação das massas populares resultará num movimento na direção da pior demagogia".

"As massas", sempre, são os outros. É a velha demofobia. Se não fizerem o que eu digo, a choldra descerá dos morros e destruirá nosso paraíso tropical. Os negros dirão que são negros. Professoras brancas com luvas brancas prometiam um quadro melhor que o das fotografias dos professores enfatiotados de Augusto Malta. As normalistas trabalharam duro, mas o estado atual do sistema escolar nacional indica muitas coisas, uma delas é o fracasso da política de ações negativas. Tirar o negro da fotografia não resolve o problema."

(Elio Gaspari - Folha de S. Paulo,  6 de agosto de 2006)

 

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Adelina Braglia às 13:49

Ainda a cratera. A da "sociedade brasileira".

Terça-feira, 16.01.07

 No domingo,  no Estadão, o Professor Gaudêncio Torquato comenta no artigo Vida nova ao parlamento a disputa entre Arlindo Chinaglia e Aldo Rebelo pela presidência da Câmara Federal, e discute e propõe instrumentos capazes de transformar este arremedo de democracia que vivemos em um sistema efetivamente democrático, representativo e federativo.

 

Leio sempre suas análises, e aprendo sempre com elas,  mas, no meu entender, o professor cometeu desta vez um erro: aponta que "a sociedade brasileira" acompanha os meandros daquela disputa.

 

Quisera eu que assim fosse. Até sei que meia dúzia de três ou quatro acompanhamos, sim. Porém, a "sociedade brasileira" não somos nós, Professor.  Nem mesmo um surto de presunção me levaria a iludir-me com isto, embora compreenda o sentido que você quis dar à nossa esperança de , como uma pequena fração da sociedade, podermos representá-la.

 

A sociedade brasileira acompanha o Big Brother Brasil 7. E nos intervalos, desde sexta-feira, espera notícias sobre se há ou não sobreviventes do desabamento na cratera do metrô. Uns chamariam a isto de solidariedade. Eu tenho dúvidas. Não sei mais qual é o limite entre a solidariedade real e o sado-masoquismo implícito.

 

Os comentaristas dos noticiários de TV apresentam as informações sobre a tragédia e em seguida falam sobre o comportamento da Bolsa de São Paulo, face o feriado da bolsa de Nova Iorque, ontem. Sem mudar o tom de voz, nivelando e igualando as informações. Nem sequer ocorre um brake entre uma informação e outra.

 

Nesse imaginário brasileiro, entre o feriado na bolsa de Nova Iorque, a disputa entre "aliados" do governo, a morte de 7, 8 ou 10 pessoas na cratera, a irreponsabilidade pública e privada de desastres como este - ou como o da lama da mineradora em Minas Gerais - ou se um bigbrother  vai ou não transar ao vivo e em cores, é que transita nossa (des) esperança.

 

E a nossa (des) esperança se aperta nos trens do metro, nos ônibus superlotados, na disputa feroz pela manutenção de um posto de trabalho precário e mal remunerado. E quando chega em casa, muitas vezes já perdeu o Jornal Nacional (feliz ou infelizmente?), a novela já vai pela metade, mas ainda há inserções do show da vida dos brothers, para espiar antes de dormir. Daquela vida estúpida onde não cabe pensar ou discutir como é que se constrói um país, uma nação.

 

Que pena, Professor, que não representemos a sociedade brasileira. Sem ironia.

 

 

 

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Adelina Braglia às 11:48

A melhor análise da cratera.

Terça-feira, 16.01.07

 

" A cratera e as Genis de sempre - Xico Sá

Envolvidas em milhares de casos de corrupção em obras públicas e acusadas de superfaturarem até poema concreto em SP, as empreiteiras responsáveis pela cratera do metrô já fizeram de tudo, nos últimos 20 anos, para serem banidas de licitações públicas no país. Praticaram todas as modalidades de abusos, foram denunciadas por dezenas de promotores e procuradores, mas sempre se safaram e continuam aí, na boa, habilitadas para novas concorrências. Também pudera, depois dos bancos são as grandes financiadoras –no paralelo e no oficial– das campanhas eleitorais. Genis políticas, elas dão pra todo mundo, PT, PSDB, PFL, PDT… quem estiver no jogo.

Cada uma dessas empreiteiras reinou em um determinado governo nas últimas décadas. Agora acabaram juntas, formando um cartel imbatível, para dividir o bolo sem intrigas e deduragens, prática comum na área. É difícil saber quem é a campeã de denúncias, mr. Google, só indo aos arquivos dos tribunais de todos os gêneros. De PC Farias para cá todas estiveram metidas em rolos faraônicos, com as devidas desculpas aos que ergueram as pirâmides.

Repare só nos batismos das construtoras e pense quantas vezes você não leu estes nomes pomposos de família bilionárias nos jornais: Odebrecht, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e OAS. A cratera é bronca pequena para estas enroladas e tradicionais senhoras que fizeram fortunas e hoje possuem negócios nos mais diversos segmentos. A culpa da tragédia, como bem sabemos, foi da chuva, do Raul Seixas, de São Pedro, do destino, menos delas. Isso é o que poderíamos chamar, evocando aquela técnica do teatro do velho Brecht, de distanciamento (ode)brechtiano, para não perder o trocadilho com a firma que lidera o tal consórcio. A realidade crua que se dane. "

(http://ponteaereasp.nominimo.com.br/)

 

 

 

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Adelina Braglia às 11:45


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