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Viva Leminski!

Sexta-feira, 11.01.08

 

 

Antigamente, se morria
1907, digamos, aquilo sim
   é que era morrer.


Morria gente todo dia,
   e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
   que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.


   Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
   E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.


   Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
   lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.


   Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
   uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
   O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.


   Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
   que deixava aquilo mais ou menos.


Tinha coisas que matavam na certa.
   Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.


   Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
   A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.


   Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
   a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?


   Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
   Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
   de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?


   O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
   Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
   Agora, vamos ao testamento.


Hoje, a morte está difícil.
   Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
   E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
   inventou a criônica.


Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

 


(O que passou, passou? - Paulo Leminski)


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Adelina Braglia às 14:31


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