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Para o nosso pai.

Quinta-feira, 27.12.07

 

 

O inefável Ano Novo traz sempre a lembrança do pai. Quem sabe porque seu aniversário era no dia 1 de janeiro e o do meu irmão é no dia 31 de dezembro. Tínhamos assim - caso o ano que acabava tivesse sido ruim e o que começava prometesse muito pouco – dois bons motivos para que a festa de final de ano se desse, mesmo que o calendário nos preparasse uma rasteira!
 
Ontem, arrumando os CDs, achei um que não ouvia há tempo e ali estava escondida em meio a outras canções, como a me dar motivo para chorar de saudade, a música Pai, cantada pelo Fábio Junior. E há um verso:
 
 “...Pai!
Pode ser que daí você sinta
qualquer coisa entre esses vinte ou trinta
longos anos em busca de paz...”,
 
que me lembrou que meu pai morreu há 30 anos (*) e que vivemos juntos muito menos – dezoito anos - do que este longo tempo em que ele foi embora e onde a sua presença é constante na minha vida.
 
Querendo escrever este post, fui ao youtube procurar a música e encontrei Fábio Junior fazendo um depoimento antes de cantar, sobre o pai com quem ele conversava sobre as coisas da vida. E eu conversava muito com o meu. Tá. O nosso, Rita e Oswaldo...rsrsrs...
 
Sigo a letra e lembro que durante muitos anos eu quis tanto que meu pai renascesse. Para contar-lhe dos meus medos e dos meus progressos ao vencê-los. Para falar das muitas lutas travadas e das batalhas perdidas. O pai era um Quixote às avessas: alto e forte, não cavalgava, mas caminhava às vezes descalço pela rua, com os sapatos nas mãos porque lhe apertavam os pés, para raiva da mãe, que achava isso uma falta de compostura.
 
Quis que o pai renascesse quando a mãe morreu. Aí pareceu tudo tão difícil, que seu colo parecia ser a única coisa capaz de me fazer forte. Quis tê-lo ao meu lado quando chegaram meus filhos, quando a Rita teve a Laura e quando o Oswaldo se formou - tão bonito e tão parecido com ele, no seu terno escuro, garboso, como diria a madrinha.
 
Fechei os olhos e ainda que as lágrimas perturbem muito, posso vê-lo no seu macacão cinza, com o qual gostava de ficar em casa, livre da farda e do fardo do trabalho. Eu o vejo tecendo uma tarrafa na sala, enquanto a Rita enchia os carretéis, ou tentando dar força ao Oswaldo para que andasse na bicicleta sem as rodinhas de apoio.
 
Eu nos vejo na beira do rio Juquiá, na madrugada, pescando, para depois assar o peixe na folha da bananeira, lentamente, para que a conversa também pudesse ser longa. E vejo também as discussões entre ele e a mãe, que me pareciam sempre afastá-los, até que há um ano a Rita me fez ver com os seus olhos uma foto tão conhecida, onde os meus olhos viciados nunca perceberam que a foto do beijo dos dois, naquele papel já enevoado pelo tempo, ainda  transpira muito amor.
 
Descubro que segui meu caminho sempre acreditando que o pai concordaria com as minhas decisões. Por isso, a canção continua tocando e outro verso está correto:
 
Pai,
você foi meu herói meu bandido
hoje é mais, muito mais que um amigo,
nem você nem ninguém tá sozinho.
Você faz parte desse caminho, que hoje eu sigo em paz

 
Feliz aniversário, pai.
Feliz aniversário, irmão.
(*) atualizando hoje, 28.12: falha na aritmética ou emoção excessiva, na verdade o pai morreu há 40 anos!!!
 


 

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Adelina Braglia às 18:02

7 comentários

De Cleide a 28.12.2007 às 00:44

Bia, mais uma vêz eu peguei a garrafa e com ela mais lembranças! Seu bisavô faz parte da minha vida também, pois ele é meu "cumpadre". Quantas passagens de ano comemoramos juntos, uma familia só.
Saudade gostosa de um tempo que não se apaga... que vive em nossa memória. Saudade é muito bom, pois não deixa morrer aqueles que amamos.
Beijos

De Adelina Braglia a 28.12.2007 às 10:39

Querida irmã,

esse bisavô da Bia era uma grande - literalmente - figura! Ele e o papai Mauro foram, cada um com suas virtudes, meus modelos de pai. Assim como tenho essa fantástica cota extra no privilégio de irmãs! E sempre, nos finais de ano, voltam com força as lembranças de um tempo em que estávamos juntos e que a vida parecia menos instransigente com as nossas tolices..rsrsrs...
.
Um abraço apertado e um beijo estalado.

De Rita a 28.12.2007 às 11:21

Minha irmã, meu irmão, o pai fez o contraponto de nossa vida e abriu portais para esse mundão. No portal "resistir-ao-medo" entramos após a morte dele, junto com nossa mãe, diante do turbilhão de acontecimentos ruins que nos esperavam. E fomos traçando nossos rumos no portal "seguir e seguir". É aí que tomamos às vezes um vento na cara nos finais de ano.
O pai nos mostrou que todas as coisas têm muuuitos lados, que nada é planificado ou arredondado demais; que a vida é multifacetada, brilhante em algumas horas e opoca em outras.
O pai, enquanto eu enchia suas agulhas de remendar redes, me contava histórias, me ensinava a escrever com cacos de gesso (da tampa do garrafão de vinho, lembra?), ora riscando no chão ora numa tábua.
Manos, a gente nunca perde o referencial dos pais e a saudade nos traz a presença e essas lembranças, que doem, mas nos sacodem para nos aproximarmos de outros portais...vamos entrando, vamos nos espantando a cada ano...
Um ano novo cheio das boas lembranças pra gente! Amo-os.
Feliz aniversário, mano!

De Adelina Braglia a 28.12.2007 às 18:56

Coincidência! Também amo você!

De Candida a 03.01.2008 às 22:08

eu não sei se amo :) mas tou-me borrifando , mamaninho.

De mara a 29.06.2008 às 19:10

Tava procurando um texto e digitei uma frase...acabei aqui...
Adorei teiu blog, espero voltar mais vezes. Tens uma escrita muito interessante, frases certeiras e fortes. Realmente gostei muito, parabéns.

De Adelina Braglia a 01.07.2008 às 14:49

Volte sempre, Mara.

Meu blog é um diário digital ...rsrsrs....é bom compartilhá-lo com você.

Um abraço.

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