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Tatuagens.

Sábado, 06.10.07
 
 
Eu descobri hoje que desafio o tempo por medo dele.
Parece tão óbvio que me sinto idiota por ter que concluir isso.
A partir disto, a eterna sensação de ser inadequada ao meu tempo, pareceu acalmar-se.
Não é, afinal, uma mera questão de inadequação. É uma questão de insubordinação,
ainda que isso não tenha o tom heróico que eu gostaria que tivesse.
 
O medo do tempo é assim um bom motivo para tentar driblá-lo,
para não encara-lo de frente, e até virar-lhe as costas sempre que possível.
 
Sempre tive um sentimento envergonhado, guardado a sete chaves:
acredito que o passar do tempo não altera sensações, alegrias e raiva.
Apenas aprendemos a ser comedidos, “adequados” ao nosso tempo.
Pensava, até hoje à noite, que isso era anormal, como ter quatro mãos!
Descubro, com o sentimento de medo do tempo, que isso é resistir à sua passagem,
conservando sensações como compotas de manga dos armários da minha avó.
 
Nunca me incomodou perceber no rosto, nas mãos ou nos cabelos que os anos passavam e passavam. De repente hoje, num gesto trivial, olhei minhas mãos que acompanhavam minha fala e as desconheci.
 
Mãos cansadas. Ágeis ainda, como o bom sangue italiano determina para quem as usa para falar, mas cansadas. Não as achei feias. Apenas cansadas.
As mãos com que afaguei ontem os cabelos da minha neta pareciam mais jovens.
E percebi nelas, mais do que em qualquer outra parte do corpo, as tatuagens que o tempo deixou, ainda que eu me escondesse dele.
 
 
 
 
 
 
 
A letra, para quem não fala português...rsrsrs...
 
 
 

Em cada gesto perdido
Tu és igual a mim
Em cada ferida que sara
Escondida do mundo
Eu sou igual a ti

Fazes pinturas de guerra
Que eu não sei apagar
Pintas o sol da cor da terra
E a lua da cor do mar

Em cada grito da alma
Eu sou igual a ti
De cada vez que um olhar
Te alucina e te prende
Tu és igual a mim

Fazes pinturas de sonhos
Pintas o sol na minha mão
E és mistura de vento e lama
Entre os luares perdidos no chão

Em cada noite sem rumo
Tu és igual a mim
De cada vez que procuro
Preciso um abrigo
Eu sou igual a ti

Faço pinturas de guerra
Que eu não sei apagar
E pinto a lua da cor da terra
E o sol da cor do mar

Em cada grito afundado
Eu sou igual a ti
De cada vez que a tremura
Desata o desejo
Tu és igual a mim

Faço pinturas de sonhos
E pinto a lua na tua mão
Misturo o vento e a lama
Piso os luares perdidos no chão

 
 
 (Tatuagens - Mafalda Veiga)

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Adelina Braglia às 22:44

2 comentários

De cris a 07.10.2007 às 15:15

Tão bonito o que escrevestes, Bia. É a sua alma exposta. As palavras pinçadas foram "sete chaves". Será que o cansaço não está aí? São muitas chaves para girar. E o tempo urge. E a roda gira. Que tal só deixar "tampado". Qualquer busca, é só levantar a tampa. As mãos com certeza agradecerão.

Beijinhos.
Bom domingo.

Ah! Adorei a música, ô pá, sabes como é...

De awor a 08.10.2007 às 21:46

Tuas mãos são tatuadas sim, pela vida e pela poesia de viver...Manoel alegre, com certeza visualizou mãos como as tuas ao fazer este poema.
beijoss rrrrrrrss e que o cansaço nos venha, não do tempo e nem do corpo, mas da repetição das coisas,... para finalmente termos o descanso merecido...

As mãos
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
(Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967)

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