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Rita.

Quinta-feira, 13.09.07

 

 

 

 

 

 

Quando a Rita nasceu, eu já tinha seis anos. Seria natural que o ciúme tornasse nossa relação difícil na infância ou na adolescência e isso não aconteceu.
 
Ela foi o bebê mais bonito que todos nós - pai, mãe, e, especialmente a madrinha – jamais havíamos visto. Boca vermelha, olhos grandes. Cabelos encaracolados, clarinhos.
 
Rita cresceu lado a lado com Petit, nosso cachorro, que, apaixonado por ela até a morte, a seguia pelos portões dos vizinhos, esperando pacientemente na porta até que ela acabasse de brincar. Quando queríamos saber onde ela estava, bastava olhar o Petit parado em frente a um portão.
 
Rita nasceu, felizmente, num tempo em que as crianças, mesmo pequenas, podiam abrir o portão de casa e sair para brincar na casa vizinha.
 
Geniosa. Como a mãe. Enfrentava tudo com o nariz empinado. Provocava, contestava. Não sei por que o verbo em tempo passado. Ela provoca e contesta. Ainda e sempre. Graças aos deuses de todas as religiões.
 
Ela não tem paciência. Ou a tem em dose mínima, aquela que permite apenas aceitar que o relógio demorará 24 horas para marcar a passagem de um dia, ainda que ela discorde desta lentidão! Pedir-lhe mais do que isso, é abuso!
 
Penso às vezes – e não sei se algum dia disse isso a ela – que ela nasceu para me completar. Não que seja só esta a chocha missão que a vida lhe  reservou. A vida lhe reservou mais e mais ainda ela foi sempre buscar. Mas, que eu faço parte do seu kit, lá isso faço! Rita veio para compor comigo e não para me tirar nada.
 
Quando me sento com ela no seu quintal, numa das muitas noites em que saudade ou uma dor na alma precisa ser dividida - e tem que ser naquela hora -  eu a ouço falar com paixão, com raiva, algumas vezes com destempero. Ela é definitiva, essa minha irmã. 
 
Ouvindo-a tenho sempre a impressão que depois da sua fala, o mundo dará seu último giro e ficará quietinho, equilibrando-se nos eixos, como a temer que ela vá lá dar-lhe uma sonora palmada na bunda!
 
Vez em quando esquece-se que sou a irmã mais velha e que é menor do que eu! Põe-se a falar comigo de dedo em riste! Veemente, brava. Critica minha aparentemente mansa maneira de enfrentar os meus leões diários.
 
Ela cobra que eu esperneie, mas, enquanto fala e fala e fica com o rosto vermelho como um tomate, retira de mim a aflição com que cheguei até ela. Como se o fizesse com as mãos. Suga para si a minha dor ou a minha raiva e eu volto para casa leve, como se ali com ela tivesse deixado meus pesos.
 
Ela sabe por que estou escrevendo hoje.  Ela é muito sabida, essa minha irmã!
 
Ela corrige minhas eternas confusões entre “esse” e “este”, ela faz um nhoque que ninguém mais faz. E ela sabe que apesar do motivo fútil para este texto estar aqui, a razão é maior.
 
É para que ela saiba que eu adoro ser sua irmã.
 
Que nós fomos feitas uma para a outra. Eu, com a minha paciência, ela com a sua impetuosidade.
 
Ao lado dela, o trivial maninha do paraense  se agiganta e tem um enorme sentido.
Entre nós o amor é incondicional e a fraternidade é mais do que uma palavra ou uma imposição consanguínea. 
 
Um beijo, querida.
 
 
PS: Irmão querido, não fique enciumado. Na penúltima frase é que estamos a três. Beijo, querido.

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Adelina Braglia às 23:59

8 comentários

De cris a 14.09.2007 às 12:21


Caramba...Chico Buarque Belo e lindo...uma letra...família...e assim, você conseguiu colocar a música no sapo. Parabéns !

Bom dia pra você !

Beijos.

De Adelina Braglia a 15.09.2007 às 12:45

Só cosegui, Cris, porque a moça da foto, do alto da sua displiiscente sabedoria, sentou-se ao meu lado e - pimba! - em três míseros segundos, me ensinou!

Viu como ela é mesmo uma menina sabida?

Beijo.

De rita a 14.09.2007 às 15:17

Te amar é que me faz evoluir...a gente se completa, mesmo nas grandes cagadaaaaas. E tomei um baita susto com minha carona no blog...bem ao modo paraense, lagrimei.

De Adelina Braglia a 15.09.2007 às 12:47

Ei, gatinha!

Não vale usar meu argumento...rsrsrs...

Beijo. Grandão.

De Carlos Cabral a 14.09.2007 às 20:13

Adorei seu blog, Bia. Na verdade vc sempre foi uma capaz dizer as coisas mais diretas de um jeitinho poetico. Beijos.

De Adelina Braglia a 15.09.2007 às 12:28

Caramba, querido. Ter você aqui, fez valer o dia, a semana, o mês e este ano estranho. Não desapareça. Abraço grande, de cunhada. Sempre cunhada.
... rsrsrs ...

De Cleide a 15.09.2007 às 20:27

Assisto, emocionada, uma parte do filme de minha vida.Transporto-me para rua Girassol e as imagens de voces (Dê, Rita, Oswaldo e Petit)são nítidas. Como é bom ter voces fazendo parte da minha familia!!!

De Adelina Braglia a 16.09.2007 às 01:43

Na-na-ni-na-não, como diz a Bia (a verdadeira).

Nosso filme é que seria Classe B sem vocês.

Beijo.

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