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Os guris.

Sexta-feira, 04.05.07

 

Não há lugar que acomode essa inquietação,
que toma formas tão variadas que eu  também a nomeio de formas diversas.
 
Ora é tristeza. Ora é tédio. Ora é uma estranha e insustentável euforia, como se uma esperança curtinha me pegasse distraída.
 
Sei que minha síndrome de poder e grandeza – megalomania – me conduz a acreditar que sou responsável pelos males do mundo. E isso é doença.
 
Mas sei também que é impossível ser indiferente ao tempo em que vivo. Isso seria vedar os olhos ao entorno.
Não dá pra ser indiferente à iniqüidade da vida da maioria, indiferente ao mal estar no olhar das crianças e adolescentes que atravessam meu caminho na rua, nas praças, no ônibus. À desesperança dos velhos e à descrença dos adultos.
 
Sei, porém, que a minha solidariedade improdutiva não leva a nada.
E a receita certa, eu não consigo seguir: parece-me um bolo desandado,
daqueles que a mãe mandava atirar no lixo.
 
A música de hoje não é coincidência. Aliás, a música do meu rádio-cabeça de hoje
é que, certamente, motivou o post:
 
 
Meu guri.
Chico Buarque.
 
 
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço?
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
 
 
 

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Adelina Braglia às 16:10

2 comentários

De Cris a 06.05.2007 às 04:11

Oi Bia. Saudades.
Quando eu estava gestante do meu primeiro filho, o Léo, o Chico Buarque lançou esta música, há 24 anos atrás.
Eu ficava sentada na cadeira de balanço, passando a mão no barrigão, e cantando essa música.
Era o meu guri e o meu medo, ao mesmo tempo.
Mas eu conversava com ele, explicava tudo direitinho. Sabes que ele entendia tudo? era chute pra tudo quanto era lado.
Beijos. Bom final de semana pra vc.

De Cris a 07.05.2007 às 01:23

Amiga, ganhei esta poesia ontem, do Pedro Nelito, o citadinokane. Vou dividi-la com você também, afinal, fala de criança, portanto de amor, acima de tudo e por tudo.

TU(Maiakovski)

Entraste.
A sério, olhaste
a estatura,
o bramido
e simplesmente adivinhaste:
uma criança.
Tomaste,
arrancaste-me o coração
e simplesmente foste com ele jogar
como uma menina com sua bola.
E todas,
como se vissem um milagre,
senhoras e senhorias exclamaram:
- A esse amá-lo?
Se se atira em cima,
derruba a gente!
Ela, com certeza, é domadora!
Por certo, saiu duma jaula!
E eu júbilo
esqueci o julgo.
Louco de alegria
saltava
como em casamento de índio,
tão leve, tão bem me sentia.

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