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Arroz doce com rúcula e alface.

Domingo, 25.03.07

 

Eu gosto de doce de abóbora com coco e de arroz doce com muita canela.

 

Gosto de água quente para tomar banho, independente da temperatura ambiente.

 

Gosto de massas. Todas. E de molho de tomates, no máximo com manjericão.

 

Gosto de vinho, mas já gostei muito de vodka.

 

Não gosto da minha vida como está. Não gosto do tempo em que vivo, muito aquém do que sonhei que iria construir.

 

Ainda gosto da Bethânia, mas Gal já não me emociona.

Caetano faz muito tempo que desgosto, desde Circuladô de Fulô, seu último disco que me deu prazer ouvir.

 

Mas, ainda amo Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro. E Aldir Blanc.

E a voz da Nana sempre me dá prazer.

Mas gosto dos mais jovens: Zeca Baleiro, Adriana Calcanhoto, Ceumar. E Renato Braz. Grande garoto.

 

Sinto, às vezes, uma secura no coração.

Toda vez que sinto isso lembro de Adélia Prado,

e não sei explicar porque, já que ela é a poeta do coração molhado de amor por tudo.

Mas, o poema que vem à cabeça é de Eugénio de Andrade:

 

 

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

 

 

Gosto tanto de caqui, fruta macia, e os compro em cada esquina onde os encontro!

 

Gosto de polenta com carne moída, salada de rúcula, alface e tomate.

Com muito azeite, limão, alho e sal.

 

E ultimamente, tenho gostado muito de ficar sozinha.

Redescobrindo que, na verdade, não sou muito de companhia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Adelina Braglia às 02:57

5 comentários

De Cristina Moreno a 25.03.2007 às 17:55

Querida Bia, te mando uma das cartas de Gramsci, quando estava prisioneiro. Reflita. Beijos, Cris Moreno.


27 de junho de 1932

Caríssima Iulca, as tuas cartas me fizeram lembrar uma noveleta de um escritor francês menos conhecido, Lucien Jean creio, que era um modesto funcionário de administração municipal em Paris. A novela se chama "Um homem num fosso". Tento recordá-la. Um homem vivera intensamente uma noite: talvez tivesse bebido demais, talvez a visão continua de belas mulheres o tivesse alucinado um tanto. Depois que saiu da festa e caminhou um pouco em ziguezague pela rua, caiu em um fosso. Estava muito escuro, o seu corpo enstalou entre pedras e moita; e ele, no sobressalto, nem se mexeu de medo de precipitar-se ainda mais no fundo. As moitas se concertaram por cima dele, as lesmas rastejaram visgosos de prata em sua pele (talvez um sapo lhe pousasse no coração para sentar sua batia; e na realidade, porque o considerava ainda vivo). Passaram as horas, veio nascendo a manhã e os primeiros lampejos da aurora, começou a passar gente. Aproximou-se um senhor ocluso; era um cientista que voltava para casa depois de ter trabalhado no seu laboratório experimental. "O que há?", perguntou. "Quero sair do fosso", respondeu o homem. "Ah! ah! querias sair do fosso! E que sabes tu da vontade, do livre-arbítrio, do servo arbítrio! Querias, querias! Sempre assim a ignorância. Tu sabes uma coisa só: que estavas em pé pelas leis da estática, e estás caído pelas leis da cinemática. Quanta ignorância, quanta ignorância!" E se afastou balançando a cabeça com o mais cabal desdém. Ouviram-se outros passos. Novas chamadas do homem. Chega perto um camponês que levava pela trela um leitão e fumava cachimbo: "Ah! ah! caíste no fosso, hein? te embriagaste, te divertiste e caíste no fosso. E por que não dormir como fiz eu?" E afastou-se com o passo ritmado pelo grunhido do leitão. Passou depois um artista que gemeu porque o homem queria sair do fosso: era tão belo, todo prateado de lesmas, com seu nimbo de ervas e flores selvagens sob a cabeça, era tão patético! E passou um ministro de Deus, que se pôs a imprecar contra a depravação da cidade que se divertia ou dormia enquanto um irmão estava caído no fosso, e daí exaltou-se e correu a fazer uma prédia terrível na missa mais próxima. Assim o homem continuava no fosso até que olhou em torno de sí, viu com exatidão aonde caíra desvencilhou-se, arqueou-se, fez alavanca dos braços e das pernas, aprumou-se nos pés e saiu do fosso ajudado tão só das suas próprias forças.

Não sei se te dei o gosto da novela, e se ela é muito apropriada. Mas, ao menos em parte, creio que é: tu mesma me escreves que não dás razão a nenhum dos dois médicos que consultaste recentemente, e que, se até agora deixavas aos outros decidir, agora queres ser mais forte. Não creio que haja nem um pouco de desespero nesses sentimentos: me parecem até muito sensatos. É preciso queimar todo o passado e reconstruir uma vida nova. Ninguém se deve deixar dominar pela vida até agora, ou, pelo menos, só conservar o que foi construtivo e belo. É preciso sair do fosso e lançar o sapo longe do coração. Querida Iulca, te abraço ternamente.

Antônio


De Adelina Braglia a 25.03.2007 às 22:26

Querida Cris,
te abraço fraternalmente.

De Anónimo a 26.03.2007 às 05:51

Vale a pena refletir sobre o significado do passado e a construção do presente. Para mim veio em um momento especial. Tenho a impressão que para você também.

De juca a 27.03.2007 às 00:55

ahahahaha...mas como estou parecido!
Do Circuladô à solidão, passando pela polenta com carne moída.


oba! aprendi a postar aqui.já estava ficando encabulado de receber tantas visitas lindas e não retribuir.bjão

De Adelina Braglia a 27.03.2007 às 14:31

Viu como somos, os semelhantes, cada vez menos, mas melhores? He..he...he..Beijão procê.

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