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A pergunta errada.

Segunda-feira, 12.03.07

 

Tendo como marco mais visível o governo Collor, a abertura econômica (melhor chamá-la de escancaramento!) trouxe a desestruturação do mercado, a fragilização dos postos de trabalho, com o desaparecimento de milhões deles, o maremoto das privatizações, todos filhotes da gestão macoeconômica neoliberal, que os governos que se sucederam - os dois governos de FHC e o primeiro Governo Lula - não alteraram.
 E no bojo desta gestão, a divisão entre um Brasil que dará certo e outro que deve ser “preservado”.
 Meu retorno ao Pará se deu no aprimoramento desta fase, em junho de 1996, após ter voltado a viver em São Paulo em janeiro de 1992. Neste retorno, a sensação era de que em apenas 4 anos o fosso que fracionava o Brasil em bandas havia sido alargado assustadoramente.
 Em 2002 votei em Lula, como em todas as eleições das quais ele participou, à exceção de 1989, quando votei em Mario Covas no primeiro turno. Acreditava que, entre outras virtudes, a sua trajetória e a sua origem, garantiriam termos um presidente com a compreensão de um Brasil real, fora do eixo Minas-Rio de Janeiro – Rio Grande do Sul – Paraná - São Paulo.
 Ingênua, eu. Lula é um nordestino “apaulistado”, com uma trajetória de liderança sindical construída no sul-sudeste. E o PT que tomou de assalto o Planalto é o PT do eixo que eu sonhava que não seria o privilegiado.
 Em 2006 não votei em ninguém. Nenhum dos projetos mereceu meu voto e em defesa do meu direito de cidadania, ficaram sem ele. Isso não fez diferença alguma para vitorioso  ou derrotado, mas para mim fez uma enorme diferença não ter votado em Lula ou em Alckmin.
 Estou deduzindo – o que não significa que é isto que estou querendo - que vamos nos dar mal de novo. Nós, os daqui do lado de cima do mapa.
 Como por princípio colonizador a intelligentzia sulista considera que todos os acadêmicos do norte são imbecis, todos os políticos daqui são corruptos e todos os governantes logo acima, logo abaixo ou na linha divisória do Equador são incompetentes, está pronto o prato e nossa ingenuidade lúdica serve de sustentação para qualquer avaliação que venha dos “centros da sabedoria inquestionável”.
 E eu que sempre acho que as ingenuidades cheias de bons propósitos e o mau caratismo pleno de más intenções estão encostados a uma tênue linha divisória que nem sempre enxergamos com clareza, afirmo que aos ingênuos só está destinado o reino dos céus. Aqui, “neste vale de lágrimas”, há que disputar ferozmente a verdade com os hipócritas, os desonestos, os mal informados e os canalhas. Mas para acertar as respostas, precisamos acertar as perguntas.
 Vamos logo à polêmica. A Amazônia e os “povos da floresta”. Ou como era verde o meu vale.
 A Amazônia deixou de ser, há uma década, a designação de uma região. Incorporou uma homogeneização conceitual assustadora, pois ela parece induzir o mundo a imaginar uma densa e intocável floresta, com névoa úmida, milhares de araras azuis. E deste conceito se deduz que embaixo da floresta vivem apenas dois tipos de seres: aqueles identificados como “povos da floresta” e homens maus que escravizam trabalhadores.
Ouvir falar em “povos da floresta” me leva a pensar apenas em matinta perêra ou caipora. Esta denominação não faz justiça às populações originárias e/ou tradicionais – indígenas, seringueiros, extrativistas – porque não os diferencia e ao pasteuriza-los descaracteriza também as suas lutas, as suas especificidades e, principalmente, as suas necessidades.
 Esta é a imagem da Amazônia que os ingênuos e os mal intencionados querem preservar: árvores, névoa, sucuris, dois pulmões que alimentam o mundo e os povos da floresta! O resto é resto. E esses restos, somos nós, incluindo os indígenas "desplumados", os extrativistas que querem perder sua condição de parias da cidadania, os seringueiros que querem conhecer os mecanismos do mercado da borracha, os quilombolas que precisam apropriar-se de tecnologia adequada para melhorar sua vida e sua produção.
 É curioso que todos – os “bons” e os “maus” – sabem a quantidade de terra agricultável, de terra degradada, de índios, de quilombolas, pescadores, seringueiros, catadores de castanha ou de côco babaçu. Mas desconhecem, por ignorância ou má fé, que há centros urbanos e semi-urbanos debaixo das árvores, onde a energia renovável ou convencional é preciosa para a produção, mas também o é para o ensino e a cultura, para que as escolas sejam equipadas com computadores e redes, para que haja cinemas e teatros. Ou que a dita produção, mesmo quando pujante, se perde em estradas intrafegáveis ou numa possibilidade de eixo hidroviário jamais respeitado pelo Brasil que “ deu certo”, porque no Brasil de lá, Sarney prefere a ferrovia.
 Nossos problemas estruturais mais graves – energia, estradas, portos e acesso a tecnologia apropriada – são mal defendidos porque nos perdemos entre o idílico e o justo. Ou porque carregamos a culpa do que jamais fizemos: não matamos nossos índios, não destruímos nossas florestas e também não matamos Caim!
 As terras indígenas e de comunidades quilombolas não são apenas as manchas de preservação florestal que se enxerga nos mapas do satélite. Ali embaixo do verde são milhares de brasileiros com expectativas ou com direito de que suas organizações sejam fortalecidas, esclarecidas e instrumentadas para trabalhar planos de manejo para que possam se beneficiar dos frutos da modernidade, o que não é crime ecológico.
Estão ali também aldeamentos e comunidades que devem exigir que a CVRD e a Eletronorte, para citar apenas duas empresas de grande porte responsáveis pela exploração mineral e hídrica discutam – e cumpram!!! – medidas compensatórias e mitigadoras dos grandes projetos que o Governo federal e os estaduais apóiam, autorizam e usufruem. Beneficiar as populações com os rendimentos disto  não é entregar o ouro e o couro ao bandido nem é coonestar o crime ambiental.
 Trabalhar com as populações tradicionais e conciliar seus modos de produção com o acesso a tecnologia adequada, não é interferir na sua cultura, porque pobreza, falta de saneamento, de saúde, de educação e de acesso à cidadania não são traços culturais. São apenas pobreza, doença, analfabetismo e cidadania de segunda classe.
 Minha fúria sempre contida deve-se à leitura do artigo de Helio Jaguaribe,  romanticamente intitulado A perda da Amazônia, de onde destaco esta “pérola”:
 “ Por meio de uma multiplicidade de processos, a Amazônia está sendo submetida a acelerada desnacionalização, em que se conjugam ameaçadores projetos por parte de grandes potências para sua formal internacionalização com insensatas concessões de áreas gigantescas -correspondentes, no conjunto, a cerca de 13% do território nacional- a uma ínfima população de algo como 200 mil índios.”
 
 (http://www.desempregozero.org.br/artigos/amazonia.php
 
 Não sei as respostas. Mas acho que estamos fazendo a pergunta errada.
PS: depois de publicado o post, um amigo ligou perguntando se eu não havia trocado Caim por Abel. Como a dúvida pode não ser só dele, esclareço: não, não troquei. Abel todos sabem quem matou. Já, Caim, há controvérsias...rsrsrs.. (atualizado às 21:42 hs)

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Adelina Braglia às 18:10

2 comentários

De thaistreptow@gmail.com a 17.03.2007 às 22:00

Você conseguiu "traduzir" em texto legível a minha indignação, toda vez que leio sobre a entidade "Amazônia". Obrigado.

De Adelina Braglia a 20.03.2007 às 16:35

Obrigada a você, por ter me compreendido. Abraço.

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