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A mesma moeda e suas faces...

Segunda-feira, 12.02.07

 

 

 

Há 4 dias a mídia e segmentos expressivos da sociedade se mobilizam protestando contra a morte violenta de uma criança de 6 anos,  no Rio de Janeiro. A criança foi estupidamente arrastada por quilometros, em plena via pública, por 4 ou 5 jovens que acabavam de roubar o carro de sua mãe. O menino ficou preso ao cinto de segurança, pelo lado de fora da porta, quando tentava sair do carro.

 

Há 4 dias, coincidentemente,  fiz esta foto,  na calçada de uma das mais importantes avenidas de São Paulo, a Ipiranga, em frente ao paredão de um dos mais importantes conglomerados financeiros do Brasil, o Bradesco. As pessoas passam e nem se impressionam mais com o que  vêem. Os meninos  na calçada, têm,  talvez, 6 anos, o menor e 12 ou 14, o outro.

 

No calor da dor de familiares e dos que tomaram conhecimento da morte do menino no Rio, movimentam-se todos para exigir mudanças na lei, para garantir a redução da idade penal, tendo em vista o aumento do número de crimes cometidos por adolescentes. Propõem que sejam presos e sujeitos às penalidades com o rigor dos adultos, a partir dos 16 anos. Alguns já propõem, inclusive, a redução para 14 anos de idade. Políticos oportunistas aproveitam-se disto e saem lépidos a propor alterações na constituição.

 

Nestes mesmos dias foram destaque nos noticiários da TV,  tanto em São Paulo quanto no Rio, cenas de violência contra adolescentes revistados por policiais em operações de rua. Pancadas, murros no estômado, socos na cabeça. Não vi protestos.

 

Para estes casos, a mesma indiferença que atinge os meninos dormindo  nas calçadas. Ou a falta de propostas. Não vi passeatas, faixas ou interrupções de jogos de futebol pelas crianças e pelos adolescentes que morrem nos confrontos de gangs ou entre estas e as milícias privadas que "cuidam" das favelas. Parece que, nestes casos,  assimilamos a  violência como instituição pública e privada! 

 

Talvez eu tente, mais tarde, juntar  as informações recentes da péssima qualidade das nossas escolas públicas, da desvalorização crescente dos professores destas escolas,  cada vez mais mal remunerados, da evasão dos adolescentes dessas mesmas escolas que nada ensinam e nada oferecem, da inóspita vida nas periferias das cidades, nas favelas e cortiços, que fazem com que as crianças prefiram os riscos das ruas à violência do seu entorno, para entender melhor que país é este.

 

Talvez, precipitadamente, precise deixar aqui uma única impressão que me aflige quando ouço falar em redução da idade penal, sempre que um crime bárbaro cometido por jovens chega à mídia -  e é maior a repercussão quanto mais as vítimas sejam das camadas médias ou mais abastadas da nossa cínica sociedade -   penso num corpo corroído pelo câncer. E que a cura que se propõe,  é a amputaçaõ dos dedos.

 

 

Atualizado hoje (16.02.07) com o poema postado pela irmã nos comentários:

 
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

 

(Nada é impossível de mudar - Bertold Brecht)

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Adelina Braglia às 12:06

1 comentário

De Rita Braglia a 15.02.2007 às 08:41

É, minha mana,
colei esse trecho de Brecht na parede pra
náo deixar a doença do habitual me contaminar...e lá vamos nós querendo consertar com leis o indizível na sociedade. Inquisição pós-moderna? (sic)

Nada é impossível de mudar (Bertold Brecht)

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

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