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Diatribes. Ou, Brasil cordial, 7.

Quinta-feira, 08.02.07

 

Escrevi hoje para o nosso jornalão, O Estado de São Paulo, a carta abaixo, em resposta ao artigo publicado em destaque na data de hoje e que está transcrito também abaixo, depois da minha carta, é claro!
 
O jornal O Estado de São Paulo, o mais conservador do país, costuma abrir espaços democráticos para a discussão de temas importantes, como é a questão do racismo no Brasil. Na dúvida, caso minha resposta não seja publicada, vai na íntegra o artigo do Professor e o meu pedido de publicação de resposta ao jornal. Pelo menos minha dúzia de três ou quatro afetuosos leitores, pode acompanhar a discussão.
 
Abraços
 
Aqui vai minha carta e quem quiser conferir na íntegra o estudo que o Professor critica, pode encontrá-lo aqui:
 
Para uma longa diatribe, uma longa resposta. Só assim é possível contestar a crítica  do Professor Doutor Demétrio Magnoli, aos resultados do estudo Retratos da desigualdade, onde ele afirma que o nosso racismo só existe a partir de “perversas interpretações seletivas de informações disseminadas pelo IBGE.” e que foi publicada no Estado de São Paulo,  de hoje, 08/02/2007, publicada no Espaço Aberto, sob o título Estatísticas no pau-de-arara.
 
O Professor critica a unificação das auto-definição das categorias censitárias de cor – pretos e pardos – que, agregadas, são indicativos de raça – negra – e apontam claramente o racismo brasileiro como fundamento da pobreza de expressiva parcela de afrodescendentes. Para ele, como delicadamente chama, isso é manipulação ideológica. Para exemplificar, cita até um exemplo correto, ao referir-se à Amazônia, onde há realmente a probabilidade de que na categoria pardo estejam incluídos também os descendentes de povos indígenas.
 
Convenientemente , esqueceu-se o Professor de nos informar, na sua longa diatribe, que no Censo 2000, os brasileiros que se auto-identificam como indígenas não ultrapassam a proporção de 0,43%, percentual infame, evidentemente, e resultante do genocídio e da discriminação racial, a mesma que o Professor veementemente nega (auto-identificaram-se como indígenas 734.127 pessoas no universo de 169.872.856 recenseados).
 
Assim, ainda que a categoria “parda” ocultasse todos os que se declararam indígenas, a proporção total não seria comprometida. Salvo para o uso manipulador, como bem o fez o Professor.
 
As informações da pesquisa Retratos da desigualdade são mesmo difíceis de serem digeridas. Elas batem no nosso rosto eurocêntrico, elas agridem nossa ilusória mentira histórica de democracia racial. É a prova inconteste de que a pobreza tem raça e cor no Brasil.
 
Ou, a contestação disso, Professor, leva-nos a inferir que o senhor, sociólogo e doutor em Geografia Humana, está confuso, da mesma forma que aqueles que fizeram parte do universo pesquisado pelo Instituto Perseu Abramo, em 2003, onde 82% reconheciam que existe racismo no Brasil, mas apenas 4% destes reconheciam-se como racistas, o que fundamentou a bela campanha Onde você esconde o seu racismo?
 
Quanto à questão regional sobrepor-se à questão racial, lamento, Professor, que com a sua formação, certamente brilhante, ignore os condicionantes históricos do desenvolvimento brasileiro e os privilégios da industrialização para o sul e sudeste maravilhas. Mas aqui também a situação do negro no mercado de trabalho é exemplar, levando-se em conta que a Fundação SEADE jamais poderá ser acusada de conluio petista ou seus técnicos de serem aliados da ministra Matilde.
 
Segundo pesquisa da SEADE, a distribuição das pessoas por raça e cor, segundo renda domiciliar per capita, indica que em 2004,na Região Metropolitana de São Paulo, a proporção de brancos que ganhava até 0,25 do salário mínimo era 3,3%, enquanto os negros eram 7,8%. No extremo oposto, pasme, Professor, enquanto 2% dos brancos ganhavam acima de 10 salários mínimos, não há negros nesse patamar. Consulte : http://www.seade.gov.br/produtos/idr/ren/ren_dom_03.xls
 
 
Outra coisa interessante é que o Brasil sempre estabeleceu políticas de cotas, inclusive para garantir o “branqueamento” da população. Foi assim com os suíços trazidos para fundar Nova Friburgo, com os imigrantes alemães, espanhóis, portugueses e italianos e para isto, historicamente, chamamos de contribuição européia para a nossa modernização.
 
No entanto, além de abafarmos totalmente a contribuição dos africanos e indígenas, hoje a maior parcela da sociedade uiva quando se fala em política de cotas para negros nas universidades. Aos negros – pardos e pretos, Professor – estão destinadas apenas as cotas negativas: maior proporção entre os miseráveis, os pobres, os analfabetos e os que ganham menores salários.
 
Não, não sou negra, não sou militante petista e sequer estou convencida que o Governo Lula leva a sério a questão racial. Mas acordo todos os dias convicta de que a eliminação da miséria no Brasil passa efetivamente pelo reconhecimento de que ao longo da nossa história, destinamos aos afro-descendentes a condição de cidadãos de segunda categoria. E que não haverá justiça, democracia, desenvolvimento e paz enquanto não assumirmos que não somos uma nação multiracial apenas para o que nos convém. É preciso abrir os porões, Professor.
 
Abaixo vai o artigo do professor:
 
 
Estatísticas no pau-de-arara
Demétrio Magnoli
“A pobreza tem cor e raça.” O adágio revela uma concepção sobre o Brasil, difundida pela Secretaria da Igualdade Racial (Seppir) e pelo cortejo de ONGs defensoras das leis raciais. O Brasil não seria uma sociedade de classes atravessada por profundas desigualdades de renda, mas uma sociedade estamental dividida rigidamente por fronteiras “raciais”. Até há pouco, a demonstração “científica” dessa concepção dependia de perversas interpretações seletivas de informações disseminadas pelo IBGE. A dificuldade foi solucionada pela pesquisa Retratos da Desigualdade, publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que ganhou uma segunda edição em 2006.

A manipulação de estatísticas com fins ideológicos é uma velha arte. O IBGE quase sempre conseguiu passar incólume pela tentação de torturar os números até fazê-los confessar aquilo que interessa ao poder de turno. O Ipea aceitou converter-se em câmara de tortura: a pesquisa, conduzida por irmãos de fé da ministra Matilde Ribeiro, da Seppir, suplicia informações do banco de dados do IBGE até “provar” os seus próprios pressupostos.

O ponto de partida é um choque de alta voltagem: a fusão das categorias censitárias “pretos” e “pardos” na categoria ideológica “negros”. Para o IBGE, “pardos” são 42% dos brasileiros, um número que surge da soma de todos os que não se declaram “brancos” (51%), “pretos” (6%), “amarelos” ou “indígenas” (1%). Na vida real, os “pardos” são os quase-brancos, quase-índios, quase-pretos da geléia geral brasileira. Os fanáticos das raças, embaraçados pela “impureza”, simplesmente decidiram eliminá-los das estatísticas, sob o argumento arbitrário de que são “afrodescendentes”. Na Amazônia, por exemplo, eles refletem mais um substrato indígena e podem não ter ascendência africana significativa.

Mas a pesquisa quer chegar a um fim definido a priori e não se detém diante de obstáculos éticos, como o princípio da autodeclaração, ou científicos, como a genética. A supressão dos “pardos” produz magicamente um Brasil dividido ao meio em “brancos” e “negros” (48%), o modelo ideal para os engenheiros de leis raciais. Todos os gráficos e tabelas apresentados trazem a observação de que “a população negra é composta de pretos e pardos”. Essa nota “técnica” é o pilar estrutural da pesquisa. Sem ele as conclusões desmoronariam por inteiro, pois os indicadores do IBGE insistem em mostrar que, em média, a pobreza atinge mais amplamente os “pardos” do que os “pretos”. Os primeiros têm menor rendimento médio e menos anos de estudo, um forte indício de que as desigualdades sociais no País não decorrem do preconceito racial.

Depois do choque elétrico, é tempo de uma sessão de afogamento: a opção preferencial pelas médias gerais. O procedimento, típico das abordagens metodológicas de crianças que começam a descobrir o universo das estatísticas, não decorre de incompetência técnica, mas da paixão ideológica. Ele funciona para extrair as “confissões” paralelas de que os pobres são pobres por serem “negros” e de que a pobreza não “gruda” em pessoas de pele menos escura.

No Brasil, o 1% mais rico da população, constituído essencialmente por “brancos”, detém renda quase igual à dos 50% mais pobres. Essa disparidade extrema puxa para cima todas as médias referentes aos “brancos”, escondendo as massas de pobres com pele clara que habitam as periferias das metrópoles, o sertão nordestino e as várzeas amazônicas. É o cenário estatístico dos sonhos, num país onde o governo federal já patrocina cursos de alfabetização em favelas exclusivos para “negros”.

Finalmente, utiliza-se a palmatória para dissuadir a vítima de falar sobre as desigualdades regionais. Cerca de 75% dos “brancos” vivem no Sudeste e no Sul, as regiões mais ricas do País, enquanto 53% dos “negros” vivem no Nordeste e no Norte, as regiões mais pobres. De modo geral, segundo dados do IBGE, os “negros” do Sudeste e do Sul apresentam indicadores sociais melhores que os dos “brancos” do Nordeste e do Norte. Esses cruzamentos de informações brilham pela ausência na pesquisa dos fanáticos das raças. Mas quem não é fanático sabe o que eles revelam: a “questão regional” é muito mais relevante que a “questão racial” para explicar as desigualdades sociais no Brasil.

Mesmo assim, felizmente, não ocorre a ninguém sugerir cotas para nordestinos nas universidades ou no mercado de trabalho. Um estudo estatístico honesto sobre a desigualdade de renda no Nordeste, apresentado em maio de 2006 ao Encontro Regional de Economia da Anpec/BNB, prova que as diferenças de rendimento no interior de grupos de “raça” são muito mais significativas do que as desigualdades entre esses grupos na determinação da desigualdade total. Os autores, Marcelo Siqueira e Márcia Siqueira, provavelmente serão logo denunciados como intelectuais a serviço da “elite branca”.

Os Retratos da Desigualdade do Ipea são qualificados, no texto de apresentação, como “poderoso instrumento na luta” pela igualdade de raça. Eis, para variar, uma afirmação incontestável: a pesquisa é um discurso puramente ideológico, vestido nos trajes sedutores oferecidos pela estatística e veiculado por órgão de Estado como se fosse investigação sociológica. A sua meta não é iludir as pessoas familiarizadas com estatísticas, mas subsidiar a propaganda política oficial. Afinal, como se sabe, a repetição incansável de uma mentira é capaz de convertê-la, provisoriamente, em verdade absoluta.

No Brasil, a pobreza não tem cor - ou, melhor, tem todas as cores. Essa evidência, que traz implicações políticas óbvias, não interessa aos promotores das leis raciais e deve ser calada no momento em que o Congresso se prepara para votar o Estatuto Racial. Assim se faz “política social” sem custo financeiro, mas com elevados dividendos eleitorais.
Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia
Humana pela USP
E-mail: magnoli@ajato.com.br

 
Atualizado às 21:36, a resposta do Professor Demétrio, por e-mail:

 Por acreditar na existência natural de "raças", a leitora não compreendeu o núcleo de meu argumento e critica um artigo que nunca escrevi. No Brasil, mais de quatro quintos da população, inclusive muitos que se declaram "brancos", apresentam significativa carga genética africana. Por motivos similares, muitos dos que se declaram "pardos" apresentam significativa carga genética européia ou indígena. A "impureza" está por toda parte, felizmente. A pobreza também, infelizmente.

Demétrio Magnoli 

 

Atualizado às 16:50 de 09/02/2007, com meu comentário à resposta do Professor:

O Professor parece não reconhecer o que escreveu.

Eu reafirmo o que li, e o que escrevi.

 

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Adelina Braglia às 17:46

2 comentários

De Malu a 27.02.2007 às 14:57

Só me apetece fazer um pequeno comentário a respeito das cotas: penso que somente são justas as cotas para os deficientes fisicos, onde não é possivel o tratamento igualitário; de resto...não passa de paternalismo totalitário e anti-democrático.

De Adelina Braglia a 28.02.2007 às 21:18

Malu, as cotas são propostas como política de ação afirmativa por prazo determinado. Elas são justas, na medida em que a pobreza e a desigualdade têm cor e raça, no Brasil. É negra. A desigualdade racial é histórica e jamais será alterada se não houver política pública específica para combate-la.Os docentes negros nas universidades brasileiras não chegam a 1%, desproporção brutal em relação à proporção de negros no conjunto da população. Mas, esta é uma discussão longa e saudável. Tenho um texto elucidativo sobre isto. Mando pelo e-mail. Abraço.

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