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Aos meus amigos.

Segunda-feira, 05.02.07

 

Minha amiga Vera,  numa das nossas intermináveis conversas, quando éramos adolescentes, à pergunta  “ o que você pediria pra fada madrinha se ela aparecesse”, respondeu prontamente: Eu pediria a varinha.
 
 
Éramos muito jovens. Hoje temos 57 anos - embora ela seja quatro meses mais velha e, por isso mesmo, mais experiente, como me disse há dias – e eu ainda  não sei cuidar dos meus desejos e não sei o que pediria à  fada madrinha, levando-se em conta que o privilégio de pedir a varinha eu o perdi naquela conversa.
 
 
Se ler o jornal pela manhã, tenho desejos insanos de fazer a revolução! Se assistir somente o noticiário da noite, tenho uma enorme vontade de desligar a TV. E dane-se a revolução!
 
 
Se sentir saudades, quero matá-las a ferro e a fogo, desejando ver todos ao mesmo tempo, ouvir todas as músicas, sentir todos os sabores.
 
 
E, como não fiz a revolução pela manhã, deixo para depois de amanhã também a saudade, a música que não ouvi, os sabores que volto a postergar.
 
 
Escrevo sem pensar,  mas,  de repente,  penso que isso é uma forma bastante idiota de acreditar que não morro. Ou de ser desleixada para com meus afetos, mas torcendo sempre para que meus amigos não me expulsem da memória.
 
 
É preciso relembrar Drummond, e reconhecer que esta é a minha arrogante forma de pedir desculpas:
 
 

Eu também já fui brasileiro
Moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

 

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

 

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

 

 

(Carlos Drummond de Andrade – Também já fui brasileiro)

 

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Adelina Braglia às 22:26


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