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Carlos Rui Drummond Barata.

Terça-feira, 05.12.06

 

 
(...) "Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam [os delicados] morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação"
 
 (Os ombros suportam o mundo", Carlos Drummond de Andrade)
 
 

Pois é. Hoje não acordei com “música de fundo”: foi poema de fundo. Verso de fundo. Fração de poema de fundo. Acordei com o poema na cabeça e depois senti raiva. Não foi automático, que esta é uma virtude: nunca acordo de mau humor. Posso até ficar péssima, logo a seguir!

 

O espetáculo é bárbaro. À margem das decisões,  moeda de troca de anos em anos – às vezes de dois em dois, às vezes de quatro em quatro, conforme a eleição - os brasileiros tornam-se menos informados embora mais “escolarizados”.

 

A renda média cresce, mas isto ocorre pela ocupação de parcela dos mais de 20 milhões de desempregados em postos de trabalho precários, sem benefícios diretos ou indiretos, sem contribuição ao sistema de previdência. Dentro de 20 ou 30 anos, uma massa de idosos não mais terá condições físicas para trabalhar e não terá amparo da previdência pública.

 

No Pará, 70% dos presos têm entre 18 e 24 anos e esta marca não deve ser muito diferente no conjunto dos estados desta hipocrisia chamada “federação”. Este é o melhor futuro que estamos conseguindo destinar aos nossos jovens.

 

Mas, já que nem sou tão delicada quanto gostaria e já que ultrapassei o tempo em que morrer adiantaria alguma coisa, acho que Drummond amanheceu na minha cabeça pra me lembrar disto tudo, e da necessária humildade - que não tenho - pra aceitar que minha tarefa se extingue e que há que atravessar o paredão (voltem uns dias atrás e lá está Torquato Neto me dizendo a mesma coisa).

 

A vida tem sido uma ordem há tanto tempo que nem sou capaz de marcar o momento exato em que me perfilei no seu quartel. Mas, aos 5 anos de idade meu pai me deu – está lá, na dedicatória datada feita com sua letra miúda - Lampião, o rei do cangaço, de Nelly Cordes, como primeiro livro da minha biblioteca. Taí. Tem alguma coisa a ver com aquilo que sou e que pareço ser!

Lamento que só agora, na provecta década dos meus 50-quase-sessenta,  é que fui pra analista pra aprender que dentro da ordem há que existir um pingo de prazer. Senão a gente não dá conta.

 

 

E acabei chegando no Rui Barata, nosso poeta:

 

 
(...) Vamos Chico,
leva-me nas asas do teu anjo;
tira-me dos livros,
aparta-me do pranto,
estas horas longas,
estas longas horas,
que jamais,
jamais,
poderemos calar.
Vamos Chico,
quero ver de novo o mar
nosso rumo é o absoluto
onde iremos descansar,
plantaremos nossas flores,
pintaremos nossa cruz,
abriremos nossa cova,
e depois,
— pela madrugada
enquanto o tempo não pára
deitaremos calmamente
à espera do milagre.
Ó Chico
dá-me o teu braço que estou cheio de pecados,
dá-me o teu ombro que este nojo é bem maior.
E orações,
poesia,
amor,
não satisfazem
se me desamparares
tombarei.
Ó Chico além de nós é o tempo dissolvente (...)
(Carta – Rui Barata)
 

 
Estátua do poeta RuiBarata, Parque da Residência, Belém, Pará, Brasil.
  
Fui. Que a vida não dá recesso. O único possível, não o quero.
 
Por enquanto.

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Adelina Braglia às 12:03


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