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Ovo Kinder.

Quarta-feira, 22.11.06

 

Como tudo no Brasil - do neoliberalismo, passando pela boa música européia - os ovos Kinder chegaram com atraso. No final da década de 70, acredito.

Meu filho mais velho era ainda criança, e a diversão era por mim compartilhada quando comprávamos um. Sinceramente, a diversão maior era minha. A ele interessava o chocolate e o brinquedo montado. A mim,  a ansiedade para ver qual seria a surpresa daquela vez e de testar a minha "inabilidade" manual.

No geral, quem montava as "surpresas" era Rosa e sua atávica paciência e perseverança. Para mim,  apesar do prazer contido no ato da tentativa de montagem, prevalecia sempre a impaciência.

Simbolicamente, o ovo Kinder representava  o que sempre deveriam ser as surpresas.  Nunca o oco estaria oco. Nunca haveria algo desagradável como conteúdo. As peças eram sempre muito bem acabadas, coloridas, macias.

Aqui, as caixinhas internas eram transparentes, sem graça. Pelo menos naquele período. Na Europa, sei que eram coloridas. Amarelas, parecendo verdadeiras gemas de ovo!

Mas, o que encantava, aqui no país da imperfeição e das coisas mal acabadas - inclusive a democracia - eram os encaixes: nada de força, nem de arestas ásperas. Bastava jeito e ..pimba!...... dava para "ouvir" a suavidade com que as peças se encaixavam.

A fina casquinha de chocolate lembrava imediatamente a hóstia -  eu e meus pervertidos traumas da péssima formação de colégio de freiras - mas isso não me roubava o prazer de sentir, nas mãos e na boca, a suavidade do chocolate especialmente preparado (quase escrevo "adredemente" preparado!).

Hoje não procuro os ovos Kinder. Maurício cresceu e não se interessa por eles. Bruno, o filho mais novo não os curtia tanto assim, e Beatriz, a neta que eu mereço, não é aficcionada por chocolates. Mas, poderia até comprá-los para mim se, aqui onde o sol nunca se põe, o produto não DERRETESSE  nas prateleiras.

Faz sentido agora esta lembrança, aparentemente incompreensível ao acordar: o ovo Kinder e  sua simbologia.

Querer boas surpresas sempre e ter que compreender e aceitar que meu projeto profissional e de vida derrete dia após dia. Como se se desmanchasse sob o efeito do brutal calor. Como os ovos Kinder,  tão imperfeitos aqui nas prateleiras, com as marcas de dedos que os amassam sem cuidado, sem perceber sua fragilidade e delicadeza.

 

 

 

 

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Adelina Braglia às 10:34


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