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"Carro de boi que não geme não é bom..."

Segunda-feira, 18.09.06

O carro de boi rangia a cada parada. Carro bom,  gemedor, como na música de Gilvan Chaves.

Eu já havia passado pelas bancas de doces caseiros - batata doce, batata roxa, abóbora em calda ou em pedaços -  olhado os bordados, as cestas de vime, as bonecas de pano.

Mais acima, no Parque da Água Branca, foi reproduzida a casa de pau-a-pique, onde a cozinheira fazia o café no fogão à lenha e a broa assada de milho (a cavaca). O cheiro do café torrado e moído entrou narina a dentro. Quase ouvi a voz do avô perguntando se eu queria um pedaço de queijo para molhar no café quente.

Eu, que nem preciso muito deste estímulo para lembrar das férias na casa da avó, sentei à sombra,  ouvi música caipira e fiz minha viagem. A estrada de ferro da Cia. Paulista, a estação de Rincão. O pai que sempre ia me buscar no final de janeiro.

A tia carinhosa, fazendo o pão da semana nas quintas-feiras. Eu ganhava sempre um pão pequeno, recém saído do forno, e cheio de manteiga. Os primos ficavam com inveja desta predileção, mas ser a neta mais velha era suficiente para a garantia de privilégios.

Privilégio era também levar o pequeno caldeirão com o almoço do avô. Amarrado fortemente com um pano de prato, para que a tampa não caísse, eu o levava para a roça que, certamente, era próxima à casa, mas na minha memória infantil, era um longo caminho, cheio de trilhas e flores amarelas. Ipês. E mangueiras! Mangas pelo chão, cheirosas.

O avô ensinava que não se devia desprezar as que estavam bicadas pelos passarinhos. Ele dizia que estas eram as mais doces e que bastava levá-las ao rio, lavar e comer. Enquanto ele almoçava, essa era a minha diversão.

Na volta, a avó sempre à porta da casa, me esperava com o suco. De limão. Dizia que era para espantar o calor. Em seguida, o meu almoço: arroz, feijão, um ôvo caipira com a gema mole. Às vezes, uma galinha cozida com muito quiabo e em ocasiões especiais, costelas de porco defumadas, assadas na brasa. Ou polenta com carne de porco frita.

Aos domingos, o sacrossanto macarrão caseiro, molho de tomates sem pele e sem sementes e um forte cheiro de mangericão. Nos domingos também os doces estavam disponíveis: compota de goiaba, doce de mamão verde, doce cremoso de banana. E doce de laranja da terra.

E até agora uma vontade imensa de afastar o tempo e voltar.

 

 

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Adelina Braglia às 19:14


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